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Esta é uma coletânea diária das notícias sobre
meio ambiente divulgadas nos mais importantes jornais do país. (Terça-feira,
11 de Novembro de 2008)
11 de Novembro de 2008 - Como resultado do aquecimento global e da necessidade de atingir as metas de redução das emissões de carbono, as empresas e países terão que desenvolver tecnologias mais limpas. E isso pressupõe a existência de profissionais preparados para desenvolver soluções sustentáveis, que proporcionem não só ganhos econômicos, mas também ambientais e sociais. Baseando-se nessa perspectiva, Lester Brown, um dos pensadores mais importantes da sustentabilidade, aponta que as mudanças climáticas podem gerar milhões de empregos em todo o mundo, evitando assim o declínio da economia. Brown não é o único a ter essa convicção. Um estudo recente realizado pelo Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas (Unep) - o primeiro a tratar da questão dos postos de trabalho na transição para uma sociedade mais sustentável - também revela o impacto que a ascendente economia verde pode causar na mão-de-obra global. De acordo com o Green Job - towards decent work in a sustainable, low-carbon world (Emprego Verde - para o trabalho decente em um mundo sustentável, de baixo carbono) as mudanças climáticas têm tudo para gerar milhões de empregos se houver um investimento estratégico por parte de corporações e governos em todo o mundo. O setor de energia eólica e solar, por exemplo, dispõe de potencial para gerar mais de oito milhões de postos de trabalho nas próximas duas décadas, segundo estimativas do Unep. Diante desse quadro, novas funções serão criadas, e outras até mesmo perderão relevância, o que levará à extinção de alguns cargos dissonantes com a nova economia sustentável. O relatório do Unep também destaca a importância dos países em desenvolvimento nesse processo e como as mudanças climáticas estão afetando milhares de trabalhadores e famílias que tem na agricultura e no turismo sua fonte de renda. Além de oportunidades, o Green Job enfatiza também os riscos: diversos empregos em novas áreas, como na reciclagem, estão longe de serem considerados decentes e é necessário um empenho global para repensar uma economia menos desigual. Segundo o documento, líderes globais não deveriam buscar o "conserto" do modelo econômico atual, mas sim as possibilidades oferecidas por modelos alternativos. São justamente essas possibilidades o atual objeto de reflexão de Brown. Em seu novo livro - "Plan B 3.0: mobilizing to save civilization", o especialista defende que, por meio do desenvolvimento e uso de energias renováveis, é possível criar novos empregos, conduzindo a economia para a sustentabilidade. Brown afirma ainda que a humanidade precisa rever particularmente a matriz energética com políticas econômicas para reestruturar taxas e pressionar o mercado a "contar a verdade ambiental". Segundo o autor, essa verdade diz respeito à inabilidade do mercado em incorporar impactos indiretos causados ao meio ambiente e à sociedade pelas atividades econômicas. Reestruturar taxas, favorecendo as tecnologias e práticas mais limpas, seria uma forma de se contrapor a essa lógica. Em quase 40 anos dedicados à militância, o especialista tem se empenhado em mostrar uma visão de futuro sustentável e os meios para torná-lo possível. Em 1974, fundou o Worldwatch Institute, uma organização sem fins lucrativos dedicada à análise das questões ambientais globais. Em 1984, lançou a série de relatórios "O Estado do Mundo", que alcançaram status semi-oficial, transformando-se em "Bíblia" do movimento ambiental. Em 2001, Brown criou a Earth Policy Institute, uma organização que dissemina informações ambientais por meio de uma rede mundial de editores e pelos meios de comunicação, principalmente internet. O especialista, que virá ao Brasil na próxima edição do Fórum Internacional de Energia Renovável e Sustentabilidade, o Ecopower - realizado de 19 a 21 de novembro, em Santa Catarina - concedeu uma entrevista exclusiva à Idéia Socioambiental, na qual abordou, entre outros temas, as medidas necessárias para tornar a economia mais sustentável: Idéia Socioambiental - Um estudo recente da Unep mostrou que combater o aquecimento global pode ajudar a criar novos empregos. Partindo dessa premissa, o senhor acredita que a crise financeira atual, de alguma forma, pode ser uma oportunidade para rever o modelo econômico e conduzir a economia para a sustentabilidade? Lester Brown - Com as fontes renováveis de energia em desenvolvimento há uma oportunidade enorme para criar postos de trabalho. Na Alemanha, divulgou-se que o número de postos criados por capacidade de produção de megawatt de energia elétrica, vinda de energia eólica ou solar, é dez vezes maior do que em usinas termoelétricas de carvão ou nucleares. Vejamos a situação dos Estados Unidos. Só na transição de fontes de energia, saindo dos combustíveis fósseis, a projeção é de sete milhões de empregos gerados. Precisaremos de um número enorme de carpinteiros, encanadores e eletricistas para instalar aquecedores de água solares e células de energia solar. Vamos precisar também de todo tipo de novos profissionais. Temos aí uma enorme oportunidade de desenvolver e expandir a economia. Basta que tanto os países como as empresas tenham a capacidade de enxergar mais longe e começar a investir nessas tecnologias. Idéia Socioambiental - Na sua opinião, quais são os principais desafios para construir uma economia de baixa emissão de carbono? Lester Brown - Uma das coisas que o mercado não faz é incorporar impactos indiretos da queima de combustíveis fósseis. Se reestruturarmos os impostos, abaixando o imposto de renda e aumentando a taxação sobre atividades ambientalmente destrutivas, podemos levar o mercado a dizer a verdade ambiental. Ao fazermos isso, a economia energética começará, muito rapidamente, a se reestruturar e responder aos sinais de preço do mercado. Essa é a medida mais importante que podemos tomar para nos mover em direção a uma economia de baixa emissão de carbono. Enquanto isso, precisamos subsidiar o desenvolvimento das fontes renováveis de energia - eólica, solar e geotérmica - com impostos mais atraentes. Idéia Socioambiental - E como fica o Protocolo de Kyoto nessa perspectiva? Lester Brown - Minha conclusão é que acordos climáticos, negociados internacionalmente, não dão certo. Nenhum governo concorda em fazer mais do que os outros países se dispõem a fazer. O resultado disso é um acordo com padrões mínimos. O próprio Protocolo de Kyoto é um exemplo. Deveríamos ter nos afastado dele com algumas metas de cortes de emissões dramáticas, mas não o fizemos. Acredito que não temos tempo para continuar negociando novos acordos climáticos para reduzir as emissões de carbono. Por isso, temos que pensar em uma maneira de diminuir drasticamente as emissões de carbono, como aponto no meu recente livro, Plan B: 3.0. Idéia Socioambiental - E qual o caminho alternativo aos acordos internacionais? Lester Brown - Acredito que os governos locais começarão a passar por etapas para cortar suas emissões rapidamente. Nos Estados Unidos, vimos um extraordinário movimento político em oposição às novas usinas termoelétricas alimentadas com carvão. E esse movimento influenciou Wall Street. Alguns dos maiores financiadores, como o JP Morgan, CitiBank, Morgan Stanley e outros criaram o "Carbon Principles" e afirmaram que não financiarão mais empresas de energia para a construção de novas usinas termoelétricas de carvão. Acho que assim cortaremos dramaticamente as emissões de carbono. Não porque passamos anos e anos negociando acordos internacionais, mas porque localmente, começam a surgir medidas para cortar emissões. Idéia Socioambiental - Grandes companhias têm lançado linhas de produtos sustentáveis, por exemplo, a General Eletric, com a Ecoimagination. Como o senhor enxerga o movimento corporativo nessa área? A sustentabilidade empresarial veio para ficar? Lester Brown - Praticamente toda grande corporação, em todo o mundo, está tentando se tornar verde de um jeito ou de outro. Mas as empresas têm a obrigação de gerar retorno aos seus acionistas. Por isso, são dependentes dos preços como sinais do mercado para tomarem decisões. Precisamos pressionar o mercado a dizer a verdade ambiental, a partir da reestruturação do sistema tributário. Essa é a chave para se criar um futuro sustentável. O recado verde de Jeffrey Immelt É na crise que se destacam os líderes, as empresas líderes e as idéias líderes. No último dia 6 de novembro, Jeffrey Immelt, CE0 da General Eletric, deu um recado importante para aqueles que estavam pensando em suspender investimentos em sustentabilidade por causa do tsunami financeiro mundial. Em palestra realizada na cidade de Nova York, disse a 1.2 mil convidados da Business Social Responsability e do grupo brasileiro ABC, patrocinador do evento, que a crise representa o fim de um ciclo e que o momento sugere reorganizar os modelos dos negócios, criando novas formas de atuação. Nesse cenário - acredita -, a prática da responsabilidade social em todos os níveis da empresa constitui um diferencial competitivo estratégico valorizado por consumidores, funcionários, acionistas e sociedade. "Investir nisso não é queimar dinheiro, mas sim construir um meio estratégico para criar valor, gerar confiança e reforçar a transparência. Em um futuro próximo, as empresas vão competir para ver quem é mais responsável ou não." As palavras de Immelt ecoam com força e credibilidade. Não só porque é um dos mais importantes executivos do mundo. Mas, porque, há quatro anos, ele e a empresa que dirige têm sido respectivamente porta-voz e estandarte do movimento verde nos negócios. Quando em dezembro de 2004, o sucessor de Jack Welch reuniu seus principais diretores para comunicar que todos os departamentos da empresa teriam que se esforçar para criar produtos ambientalmente responsáveis, a primeira reação foi de total incredulidade. A maioria pensou que o chefe enlouquecera. Afinal, como fabricar turbinas verdes em uma organização que até então sequer havia se preocupado em mensurar seus impactos ambientais? Incomodava-os, sobretudo, a ousadia de Immelt de achar que podia mexer, sem riscos, na estratégia de uma megacorporação centenária, com faturamento de US$ 173 bilhões. O executivo estava convicto da aposta. Sabia que a nova linha de produtos, denominada Ecoimagination, hoje com mais de 60 itens, atendia às expectativas de um novo perfil de consumidores preocupados com as mudanças climáticas. E que a atitude verde, longe de ser apenas um ato de generosidade para com o planeta, atrairia novos negócios. Em 2007, a empresa investiu US$ 1 bilhão na linha Ecoimagination, turbinando as vendas para um patamar de US$ 14 bilhões, cerca de 10% do volume global de vendas da GE. Os negócios verdes crescem três vezes mais rápido do que a média dos demais produtos da empresa. E a expectativa é que, até 2010, alcancem a cifra de US$ 25 bilhões. Nesse processo, Immelt contou com dois conselheiros e uma executora de mão cheia. Chad Holliday, presidente da Dupont, foi uma espécie de coach. Andrew Shapiro, diretor da GreenOrder e responsável pela estratégia de produtos limpos da Dupont e da BP, ajudou no planejamento. Já Lorraine Bolsinger, recrutada no marketing, tem sido a capitã da implantação. Coube a ela, por exemplo, mobilizar e envolver os profissionais, inserir o tema na cultura da empresa, estabelecer um sistema de padrões e definir critérios para os produtos. Quem analisa os números da evolução rápida da Ecoimagination pode até achar que o caminho verde tem sido plano e sem sobressaltos. Não é bem assim. A mudança no modo de pensar e fazer negócios impôs enormes desafios para a GE. Entre os mais bicudos enfrentados por Immelt, quatro merecem destaque. O primeiro diz respeito à dificuldade natural de transformar a cultura organizacional de uma corporação global, com 327 mil funcionários espalhados em 83 países. Como a empresa optou por não ter um departamento de sustentabilidade, a tarefa de criar produtos verdes acaba sendo, na prática, de todos os colaboradores, o que exige diretrizes claras, metas bem definidas, ambiente encorajador à inovação e um enorme esforço de educação para pensar "fora da caixa." O segundo desafio refere-se ao fato de que, na maioria dos casos, os produtos verdes estão criando mercados absolutamente novos. Uma coisa é "tirar pedidos" para turbinas movidas a carvão em um mercado certo com clientes certos. Outra, bem diferente, é vender sistemas como o Ecohome, para controle do uso de água e energia em residências. Ninguém cria novos mercados impunemente. Há um custo inicial a se pagar - e aí se está diante do terceiro desafio - que é o de tornar os novos produtos comercialmente viáveis. Para fechar a equação de baixa escala e alto custo de desenvolvimento, os lançamentos verdes costumam cobrar 20% a mais do que os similares convencionais. O quarto desafio está relacionado á superexsposição pública. Ao adotar uma linha de produtos verdes, a General Eletric entrou na alça de mira de ONGs, sociedade civil organizada e mídia vigilante. E passou a ser mais visada. A despeito de ter cortado em 20% suas emissões de carbono e da promessa de ampliar progressivamente a produção de equipamentos de energia eólica e solar, as poluidoras máquinas a carvão continuam sendo o carro-chefe da companhia. Superar as contradições como essa, para que a GE não venha a ser incluída no time das que praticam greenwashing, é o próximo trabalho do hércules Immelt. (Ricardo Voltolini - Publisher da revista Idéia Socioambiental) |
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