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Boa leitura!

(Terça-feira, 13 de Maio de 2008)
Valor Econômico
PETROBRÁS JÁ BATE SHELL E É A 4a NO SETOR

GRAZIELLA VALENTI e CLÁUDIA SCHUFFNER

Nunca a Petrobras valeu tanto. Com US$ 267,5 bilhões atingidos ontem, tornou-se a quarta maior companhia de petróleo do mundo por valor de mercado, só atrás da ExxonMobil, da Petrochina e da Gazprom. Sua avaliação pulou à frente até mesmo da Shell - US$ 14,7 bilhões a mais. O lucro da empresa no primeiro trimestre atingiu R$ 6,92 bilhões, com um avanço de 68% em relação ao mesmo período de 2007. Preocupações com a produção, que não acompanha o ritmo projetado, explicam o motivo de a ação da companhia, mesmo em sua máxima, ter desempenho inferior ao do Índice Bovespa no ano - 4,16% ante 10,22%. Ontem, fechou a R$ 45,75.

 

NO TOPO

Ação da Petrobrás atinge máxima histórica, mas persistem dúvidas sobre novos campos.

GRAZIELLA VALENTI e CLÁUDIA SCHUFFNER, , de São Paulo e do Rio de Janeiro

A ação da Petrobras atingiu o preço mais alto de sua história. A estatal é a quarta maior companhia de petróleo do mundo em valor de mercado. Pelo fechamento de ontem, valia US$ 267,5 bilhões, exatos US$ 14,7 bilhões à frente da anglo-holandesa Royal Dutch Shell e atrás apenas da americana ExxonMobil, da Petrochina e da russa Gazprom.

O investidor não precisa ser um exímio especialista para, diante de uma informação dessas, questionar se ainda há espaço para ganhos após esse pico. As informações do serviço financeiro da Thomson One Analytics apontam para um potencial de valorização de 22% sobre o fechamento de ontem, uma vez que a média dos preços-alvo de dez especialistas de mercado é R$ 56,12 e as preferenciais encerraram o pregão valendo R$ 45,75 - máxima histórica do papel, em valores ajustados pela inflação.

Dentre as maiores dúvidas do investidor está Tupi, a descoberta da estatal na Bacia de Santos anunciada em novembro passado e capaz de mudar o patamar do Brasil no cenário global de petróleo. Essa grande novidade já está no preço das ações? A resposta, infelizmente, não é tão simples, mesmo seis meses passados da primeira informação oficial sobre o campo
.

Saber quanto vale a notícia tão comemorada não é tarefa simples. A própria Petrobras quer mais tempo e adiou para setembro a divulgação de seu plano de negócios para 2009-2013 por causa das descobertas.

Desde o anúncio, as preferenciais da Petrobras subiram 31%, enquanto o Índice Bovespa teve valorização de 10,8%. Mas tal dado não quer dizer que Tupi já está incorporado às cotações em bolsa.

Para analista Mônica Araújo, da Ativa Corretora, as ações ainda não absorveram por completo a informação. Ela disse que a razão para isso é simples: ainda existem muitas dúvidas em torno desse novo campo. "Há muita especulação sobre o real potencial dessas reservas e sobre a viabilidade econômica da exploração desse petróleo." Mônica refere-se à dificuldade adicional sabida para o aproveitamento desse óleo, que está numa região muito profunda, conhecida como pré-sal.

Além disso, é possível que os investidores não vejam no preço das ação um adicional na mesma proporção do potencial aumento de reserva que Tupi representa. A companhia tem hoje reservas de 11,7 bilhões de barris de óleo e gás equivalente. Tupi, segundo as estimativas fornecidas pela própria empresa, pode elevar esse número de 5,0 bilhões a 8,0 bilhões de barris. O aumento, portanto, pode beirar os 70%.

O especialista Felipe Cunha, da Brascan Corretora, comentou que, quando anunciado, Tupi representava um acréscimo de R$ 10 ao seu preço justo para a ação. Hoje, na verdade, seria equivalente a uma alta de R$ 5,00, já que as ações foram desdobradas. O especialista acredita que os papéis valem R$ 62,10. Mônica, da Ativa Corretora, está revisando os preços que estima para as ações da Petrobras. Por isso, não consegue dizer quanto Tupi pode agregar ao valor do negócio.

Além das incertezas envolvidas na exploração desse megacampo, Cunha explicou que a perspectiva de exploração de Tupi está num futuro distante para ter impacto no que os analistas chamam de valor presente do negócio. "Essa produção deve começar a entrar na empresa em 2013, com pico estimado para os anos seguintes".

Eliseu Martins, professor da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi), afirma ser normal que projetos de longo prazo tenham um valor atual pequeno. Isso porque para tentar estimar o lucro que uma empreitada pode trazer é preciso descontar o custo da oportunidade da aplicação do dinheiro no tempo. Dessa forma, quanto mais longe o fluxo de dinheiro que um projeto vai gerar, menor o montante equivalente hoje.

Nem quando o assunto é o passado significa que será mais fácil acertar. A Petrobras surpreendeu os analistas do mercado ontem ao anunciar um lucro líquido de R$ 6,9 bilhões no primeiro trimestre de 2008. O valor é 68% maior que o verificado no mesmo período de 2007, quando o resultado foi impactado pelo pagamento de R$ 1 bilhão para o fundo de pensão Petros. A menor valorização do real frente ao dólar também contribuiu.

O lucro operacional da companhia cresceu 32% na comparação com o primeiro trimestre de 2007 graças a um conjunto de fatores, que inclui o aumento de 80% no preço médio do petróleo comercializado, aumento da produção de petróleo (2%) e gás natural (11%), e o aumento de 8% nas vendas de combustíveis, mesmo com a parada programada da refinaria do Planalto (Replan), uma das maiores do país.

O preço médio de venda do petróleo subiu dos US$ 47,79 por barril verificados no primeiro trimestre de 2007 para US$ 86,13 por barril nos três primeiros meses de 2008. Já o preço médio de realização, que é a média dos preços de todos os combustíveis vendidos pela companhia, subiu 31%, passando de US$ 71,61 para US$ 93,78 entre o primeiro trimestre de 2007 e 2008.

Tais fatores explicam também a expansão da receita líquida da estatal, que subiu 21%, para R$ 46,9 bilhões. O resultado também foi ajudado por uma pequena redução do custo de extração que ficou em R$ 15,16 por barril contra R$ 15,22 por barril na comparação com o primeiro trimestre de 2007.

No primeiro trimestre, entraram no caixa R$ 6,4 bilhões, contratados no ano passado. O dinheiro servirá para bancar investimentos de até R$ 55 bilhões programados para o ano, um crescimento da ordem de 20% sobre 2007.

 

 

Gazeta Mercantil
A OUSADIA DOS RELATÓRIOS ONLINE

RICARDO VOLTOLINI, Publisher da revista Idéia Socioambiental e diretor da consultoria Idéia Sustentável

Em qualquer lista isenta que se faça sobre empresas socioambientalmente responsáveis, a Natura é sempre uma lembrança líquida e certa. Esta é uma condição que não se atinge - vale destacar - da noite para o dia nem por acaso, principalmente não tendo gasto fortunas em propaganda. Chega-se a ela fazendo o que precisa ser feito, com atitude e coerência. E apenas quem, de alguma forma, construiu uma história.

Ao contrário de outras companhias, que foram criadas no paradigma da ética do lucro acima de todas as coisas e depois incorporaram práticas socioambientais, a Natura nasceu na década de 1970 já preocupada com questões pouco comuns ao universo empresarial, como relações humanas, preservação do meio ambiente, transparência e co-responsabilidade pelo desenvolvimento de comunidades - fruto da crença pessoal de seus fundadores e da inspiração de modelos igualmente baseados na noção de interdependência e pensamento holístico, como o da também fabricante de cosméticos The Body Shop, da ativista Anita Rodick. Seu exemplo influenciou muitas outras companhias. O culto a valores sustentáveis, presente nos genes da cultura organizacional, explica porque a Natura foi pioneira em quase tudo o que fez nesse campo, do manejo responsável de matérias-primas ao uso equilibrado da biodiversidade na composição de produtos, da adesão à proposta de balanços sociais do Global Report Initiative (GRI) à tabela ambiental nos rótulos de sabonetes, perfumes e cremes.

Os resultados econômico-financeiros da Natura ficaram abaixo do previsto em 2007. E o mercado logo tratou o caso como uma crise. Houve quem, diante do fato, insinuasse que a empresa dedicou tempo demais à bandeira da sustentabilidade, esquecendo-se de cuidar dos fundamentos do negócio. A fase de vacas magras que se estendeu por mais de um ano após a abertura do capital parece, no entanto, não ter abalado a confiança em seus preceitos. Após um período de reclusão dedicado à "arrumar a casa" - durante o qual, aliás, pouco falou sobre suas ações sustentáveis - a Natura vai aos poucos retornando à cena com idéias provocativas que prometem fazer barulho.

Uma delas foi apresentada na semana passada, durante a Conferência Global de Transparência e Sustentabilidade - realizada em Amsterdã. Na ocasião, o seu presidente, Alessandro Carlucci, anunciou que a empresa pretende lançar um portal na Internet para comunicar seus compromissos, ações e práticas sustentáveis. Até aí, nenhuma novidade. A diferença é que, em vez de inserir nele, uma versão eletrônica do seu relatório de atividades para download, prática hoje relativamente comum entre as corporações, a Natura quer criar um espaço mais participativo que estimule a interação dos diferentes públicos envolvidos com a companhia.

O projeto ainda não tem um formato definido. Mas já vem sendo chamado provisoriamente de Wikiporting, em referência ao famoso Wikipédia. Como o portal que abriga a enciclopédia livre da Internet, o da Natura propõe, na prática, que o seu relatório seja escrito e reescrito permanentemente com a colaboração de funcionários, acionistas, fornecedores, clientes, parceiros e até investidores. A tese que fundamenta a proposta é a mesma já defendida nesta coluna: os relatórios de atividades socioambientais precisam ser mais dinâmicos, mais efetivos como instrumento de comunicação e, principalmente, mais permeáveis à colaboração das partes interessadas, até porque nenhuma empresa é proprietária exclusiva dos dados nele contidos, na medida em que esses tratam - ou deveriam tratar - de impactos gerados para pessoas e comunidades.

Basta uma leitura rápida nos relatórios hoje disponíveis no mercado para perceber que neles ainda falta a voz de pessoas e comunidades - mesmo nos mais bem feitos e criteriosos, que utilizam modelos consagrados como o do GRI. A despeito dos cuidados gráficos e metodológicos, em sua maioria eles ainda constituem meros relatos de feitos e realizações, intencionalmente positivos, estruturados em discurso unilateral, vagos e econômicos na auto-crítica, como se as empresas que o assinam já tivessem atingido o nirvana da sustentabilidade. Raros são também os que têm os seus dados socioambientais não os financeiros auditados por empresas externas.

A proposta da Natura consiste, portanto, em incorporar a voz dos públicos estratégicos no seu relatório socioambiental, substituindo o texto técnico e impermeável, que encorpa as páginas impressas, por uma espécie de obra online em aberto, sujeita às colaborações de terceiros, tarefa a que a Internet, graças ao seu potencial de comunicação de mão-dupla, presta-se como nenhum outro meio. O problema a ser administrado é que essa voz pode não ser exatamente de concordância, elogiosa ou condescendente, até porque, longe de ser linear, qualquer processo de implementação da sustentabilidade enfrenta impasses e contradições. Críticas a comportamentos e atitudes vão surgir. Dissonâncias serão uma constante em qualquer processo de diálogo franco e democrático. Uma coisa é certa: se vier mesmo a ser lançado, o portal Wikkiporting, além de revolucionar o modo de comunicar ações sustentáveis, será um ato de coragem e de apego à transparência. Resta perguntar: quantas empresas hoje no Brasil estariam dispostas a se expor desse modo?

kicker: Natura estuda lançar o revolucionário portal Wikkiporting num ato de coragem e de apego à transparência.