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Boa leitura!

(Segunda-feira, 13 de Outubro de 2008)
Gazeta Mercantil

ENGAJAMENTO DAS INDÚSTRIAS É INCIPIENTE

Apesar de poucas indústrias brasileiras terem uma política de responsabilidade social explícita, a grande maioria possui ações pontuais, principalmente na condição de doadoras de recursos. Este estágio incipiente de engajamento da responsabilidade social está em transformação para melhor. Várias questões indicam um maior comprometimento com o tema. É o que revela uma pesquisa do Serviço Social da Indústria (Sesi) a partir de dados coletados junto a 2.703 micro, pequenas, médias e grandes indústrias que concorreram ao prêmio da entidade para a qualidade no trabalho de 2008 e que empregam 391 mil trabalhadores em todo o País.

A pesquisa foi apresentada, na última sexta-feira, no Rio de Janeiro, durante o seminário promovido pela Confederação Nacional das Indústrias (CNI) e a Confederação Nacional das Indústrias da Noruega (NHO) sobre responsabilidade social no âmbito das organizações.

Segundo Alex Mansur, gerente executivo de responsabilidade social do Sesi, das indústrias de todos os portes que participaram do prêmio este ano, apenas 16,4% adotam políticas de responsabilidade social, contra 64,4% que apenas têm ações pontuais nesse sentido. Segundo ele, dados da pesquisa indicam que, entre as várias dimensões da responsabilidade social - que incluem sustentabilidade do meio ambiente, governança e valorização dos recursos humanos de uma empresa - as ações sociais junto às suas comunidades são as que mais engajam as indústrias brasileiras.

A pesquisa indica, no entanto, que a responsabilidade social já chegou às agendas dessas empresas: 63% das organizações que participam do prêmio alegaram estar com planos para organizar sua política de projetos sociais. Essas mesmas indústrias, em 70% dos casos, também vêem a melhoria da comunicação com o seu público interno como um ponto a ser aprimorado. 52% estudam a inclusão de portadores de deficiências em seus quadros e 64% desejam realizar pesquisas de clima organizacional.

Os debates do workshop CNI e NHO frisaram, ainda, a importância do conceito da sustentabilidade nos negócios. Para Jasmin Eymery, gerente para a América Latina da Det Norske Veritas - uma fundação norueguesa especializada na gestão de riscos - ela chega a ser estratégica no gerenciamento de risco nas empresas. "O gerenciamento de risco nas empresas deve abranger a dimensão da sua responsabilidade corporativa", defendeu a consultora. Segundo ela, a sociedade está menos tolerante a riscos e há uma demanda crescente por transparência. E, nesse contexto, o mero desempenho econômico das companhias não é o suficiente para avaliar a sua solidez. Como exemplo, lembrou o caso da Enron. A empresa era uma das organizações mais inovadoras dos Estados Unidos, tinha colecionado prêmios de responsabilidade social e publicava regularmente seus relatórios de políticas ecológicas e sociais. Quando suas fraudes tornaram-se públicas, notou-se o tamanho do risco decorrente da falta de governança que pautava suas ações. "Poucos imaginavam o desfecho que se seguiu", comentou. Para ela, é fundamental ter acesso a indicadores que possam efetivamente medir o risco - e as oportunidades que criam valor para a empresa - envolvido nas dimensões de governança, impactos ao meio ambiente, impactos sociais e ações voltadas à valorização dos recursos humanos da casa.

 

 

Haroldo Mattos Lemos, presidente do Instituto Brasil PNUMA (Comitê Brasileiro do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente), também questionou a abrangência dos indicadores usados nas análises econômicas. "Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), por exemplo, é limitado, pois não abrange a destruição da natureza causada pelas empresas e, portanto, não apresenta o real risco envolvido na questão", argumentou. Para Lemos, tampouco o crescimento do PIB é um bom indicador, como os dados de crescimento da China poderiam apontar. De acordo com o executivo, o mundo não deve seguir o exemplo do ritmo de expansão econômica do país asiático.

 

 

 

Valor Econômico
SETORES MAIS AFETADOS PELA CRISE SUSPENDEM AS NOVAS CONTRATAÇÕES

Regulamento: Executivo As áreas financeira, de construção, e automotiva são as primeiras a congelar vagas.

LUIZA DALMAZO e STELA CAMPOS, de São Paulo

Para Paulo Pontes, presidente da Michael Page no Brasil, "a histeria está levando a uma certa paralização".

O esfriamento dos negócios e da confiança no mercado financeiro mundial fazem empresas no Brasil suspenderem a contratação de diretores e gerentes. De acordo com cinco das principais empresas de recrutamento do país, o congelamento dessa busca por profissionais é sentido, sobretudo nos setores mais afetados pela crise, como o financeiro, automotivo e de construção. Outras áreas que vêm sofrendo com a falta de talentos nos últimos anos, como a de petróleo, energia, agronegócios (serviços) e infra-estrutura, ainda mantém as novas contratações. Mas a expectativa dos recrutadores é que os negócios desacelerem nos próximos meses.

A escassez de profissionais vivida em diversos setores da economia brasileira nos últimos anos alavancou os negócios de muitas empresas de recrutamento no segmento de alta e média gerência, assim como estimulou a entrada de novos "players". Juntaram-se à Michael Page, Case e Ricardo Xavier Recursos Humanos (antiga Manager), a Hays, Robert Half e há três meses, a Alpen, braço de recrutamento executivo da Allis, segunda maior empresa de recursos humanos do país.

O futuro dessas companhias depende da disposição das empresas do país em continuar abastecendo seus quadros. A Michael Page que cresceu 49% nos primeiros sete meses do ano, viu o cenário mudar em setembro e no começo de outubro. "A histeria está causando uma certa paralisação", reconhece Paulo Pontes, presidente da empresa no país. "As companhias estão pensando duas vezes antes de abrir novas vagas. Também estão mais cautelosas na hora de decidir sobre um candidato", conta. Num mercado aquecido, a escolha do executivo é mais rápida, segundo ele, porque a empresa tem medo de perder um bom profissional para a concorrência. Com a crise, os processos ficam mais morosos.

Gustavo Costa, diretor da unidade carioca da Hays, acredita que as companhias apenas colocaram no congelador antigos projetos de investir em novas vagas e postergaram essas iniciativas. "As substituições continuam sendo conduzidas com normalidade, principalmente as mais estratégicas", diz.

Na opinião dos recrutadores, o primeiro a ser afetado pela crise foi mesmo o setor financeiro, em especial, os bancos. Os executivos de instituições estrangeiras no Brasil estão, inclusive, entrando em contato com com eles para prospectar uma oportunidade de trabalho. A preocupação atinge sobretudo quem atua nas operações diárias, o chamado "front office".

Na área de de consumo imediato, como o varejo, muitas indústrias recuaram nas contratações. "O setor de bens duráveis sente mais porque as pessoas estão comprando menos, mas o de consumo de massa deve continuar em alta", aposta Carlos Eduardo Dias, diretor-executivo da Alpen.

No agronegócio, a demanda por profissionais para atuarem na parte de serviços, consultoria, análise e projetos deve continuar. "A indústria de base, que precisa de crédito, sofrerá mais", acredita o presidente da Michael Page.

O congelamento das contratações, no geral, acontece em companhias cujos negócios dependem da importação de produtos. "As empresas vão esperar o tempo nebuloso passar", diz Fernando Matovani, diretor da Robert Half.

Marli Manara da Silva, gerente de recursos humanos da Tenneco Automotive, fabricante de amortecedores e outros equipamentos, conta que interrompeu os projetos de troca ou reposição de funcionários. E, como segunda medida, pretende levar adiante somente 60% dos planos de contratações previstos para o último trimestre desse ano.

Alguns setores que vivem uma boa fase de desenvolvimento no país como o de petróleo, energia, siderurgia, mineração e telecomunicações devem continuar contratando. "As companhias não vão desistir de investir porque sabem que o retorno aparece no longo prazo, portanto, existe tempo suficiente para a reversão da crise", explica Costa, da Hays.

O gerente de remuneração da Philips para a América Latina, Ronaldo Nóbrega, por exemplo, explica que não é idéia da companhia cortar pessoas, nem parar contratações, porque as áreas de produtos eletrônicos, de sistemas médicos e de iluminação deverão continuar crescendo no Brasil, independentemente da crise no mercado externo.

O presidente da Ricardo Xavier Recursos Humanos, Hélio Terra, acredita que as empresas estão apenas mais cautelosas. "É preciso esperar o tsunami passar para saber quantos corpos ficaram no chão", compara. "Se vimos faltar gente qualificada nos últimos três anos, ainda haverá vagas para quem estiver preparado", diz.

André Bocater, da Alpen, acredita que a falta de profissionais em áreas técnicas, como engenharia, irá assegurar a continuidade das contratações. "Faltarão engenheiros para a construção de portos, para o setor de petróleo e todos os projetos de infra-estrutura em andamento", diz. Ele conta que mesmo com pouco tempo de atividade no mercado de recrutamento, sua companhia já teve que repatriar técnicos brasileiros para suprir o aumento dessa demanda.

Mantovani, da Robert Half, acredita que o país ainda é atraente para os investidores estrangeiros. "Acabo de sair de um cliente sueco que confirmou planos de investir aqui", conta. Ele lembra também que apesar do ambiente recessivo na Europa e nos Estados Unidos, a previsão é de apenas uma redução no crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), mas ainda assim fala-se em crescimento. "Se não for de 3,5%, será de 2,5%", diz. Dentre os quase 100 clientes com quem ele e outros profissionais da Robert Half conversaram na última semana - de diversos segmentos, a maioria de grande porte - nenhum planeja demitir.