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(Terça-feira, 14 de Outubro de 2008)
Gazeta Mercantil

AÇÃO COORDENADA DE LIDERANÇAS GLOBAIS REAQUECE MERCADOS

Uma ação conjunta dos governos europeus devolveu, ao menos momentaneamente, a confiança dos mercados financeiros globais. No total, o plano de socorro aos bancos europeus deve chegar a US$ 2,2 trilhões, entre compras de ativos e empréstimos. O compromisso das autoridades em resgatar a credibilidade do sistema foi reforçado com o plano do governo dos Estados Unidos de ampliar a ajuda aos bancos com a compra de participações acionárias nas instituições financeiras.

A resposta dos investidores foi imediata. Wall Street se recuperou da sua pior semana com uma alta diária recorde em pontos. O Dow Jones, referência da Bolsa de Nova York, saltou 11,08%, para 9.387 pontos. No Brasil, o Ibovespa disparou 14,6%, maior alta desde janeiro de 1999.

Apesar da alta, profissionais de mercado disseram que pretendem aguardar os próximos dias para ver de que maneira as bolsas reagirão à eficácia das medidas. Para economistas, o plano conjunto dos governos europeus tem um efeito importante na medida em que reafirma o compromisso de ação global para conter a crise.

Após o anúncio europeu, as atenções se voltaram para os Estados Unidos, onde o governo divulgou um programa de compra de ações das instituições financeiras, como parte do plano de resgate dos bancos. Na linha de frente, estariam nove pesos pesados, entre eles, Citigroup, Wells Fargo, JPMorgan, Bank of America, Goldman Sachs, Morgan Stanley, State Street e Bank of New York Mellon, com os quais o governo pretende investir US$ 125 bilhões. De acordo com uma fonte próxima às negociações, o Merril Lynch também estaria no grupo.

Ontem à tarde, o secretário do Tesouro, Henry Paulson, chamou os dirigentes das principais instituições financeiras para comunicar que o plano envolve a compra da participação dos bancos com problemas - ao contrário do que agradaria aos banqueiros.

 

 

Valor Econômico
EUROPA ATACA CRISE COM PLANO DE RESGATE DE US$ 2,2 TRILHÕES

Os governos europeus lançaram nesta segunda-feira um plano de ataque geral contra a crise financeira mundial, com compras multimilionárias de ativos bancários e empréstimos que somam a cifra de quase € 1,7 trilhão de euros (US$ 2,2 trilhões). Ao mesmo tempo em que foram pensadas em comum algumas diretrizes amplas para enfrentar a queda nos mercados de ações e o congelamento dos mercados de crédito, as principais economias européias também adotaram algumas medidas individualmente, destacando diferenças de approach no combate da pior crise financeira do pós-guerra.

Ontem, os líderes europeus concordaram em agir nacionalmente lançando mão dos instrumentos necessários para responder às especificidades locais. "Já passou o tempo em que cada um atuava isoladamente", afirmou o presidente francês Nicolas Sarkozy, durante uma coletiva de imprensa em Paris. Sarkozy anunciou que seu governo garantirá € 320 bilhões em empréstimos bancários e criará um fundo capaz de injetar até € 40 bilhões na economia para recapitalizar os bancos.

Na Alemanha, o governo da chanceler Angela Merkel prometeu € 400 bilhões em garantias de empréstimos e reservou € 20 bilhões para cobrir prejuízos potenciais. O governo alemão também fornecerá cerca de € 80 bilhões de euros para recapitalizar os bancos, ou cerca de 3,2% do Produto Interno Bruto (PIB) da Alemanha. O pacote de resgate norte-americano, no valor de US$ 700 bilhões, destinado à compra de dívidas podres dos bancos e, possivelmente, à recapitalização dos bancos, é equivalente a 4,9% do PIB dos Estados Unidos.

Na mesma linha, o gabinete da Espanha aprovou medidas para garantir até € 100 bilhões de euros em dívidas dos bancos este ano e autorizou o governo a comprar ações de bancos que necessitarem de capital. O primeiro-ministro espanhol José Luis Rodríguez Zapatero informou que os bancos estão precisando ser recapitalizados no momento e que a medida é "preventiva".

O acordo fechado pelos líderes dos 15 países que usam o euro como moeda ajudou a desencadear uma alta no mercado de ações e na cotação do euro, após a queda dos mercados registrada na semana passada - quando o índice referencial das ações européias despencou 22%, maior recuo em duas décadas, antes de registrar recuperação de até 7,4% ontem.

Antes de os mercados abrirem na Europa, o Federal Reserve (Fed, o Banco Central dos Estados Unidos) anunciou uma ação conjunta com o Banco da Inglaterra, o Banco Central Europeu e o Swiss National Bank para fornecer fundos a uma taxa de juros fixada antecipadamente a cada operação. O Fed disse que aumentaria suas linhas para swap com esses bancos centrais "a fim de acomodar quaisquer quantidades de dólares americanos que estejam financiando" a demanda das instituições. O Banco do Japão considerava fazer parte do plano.

Enquanto isso, na Inglaterra, o Royal Bank of Scotland - visto uma vez entre as mais sólidas instituições da Main Street da Grã Bretanha - anunciou que tentaria obter cerca de US$ 64 bilhões a fim de reforçar seu capital como parte de uma operação de salvamento desenvolvida pelo primeiro ministro Gordon Brown e Alistair Darling, ministro das Finanças, e oferecida como um modelo global para resolver a crise.

O banco disse que o governo britânico compraria ações preferenciais, avaliadas em cerca de US$ 8,5 bilhões, e subscreveria o resto. O acordo poderia significar que o governo britânico será proprietário de cerca de 60% do Royal Bank of Scotland e de mais de 40% do HBOS e do Lloyds TSB, que estão negociando uma fusão. O Barclays Bank disse que levantaria mais de US$ 10 bilhões de investidores privados. Como parte do acordo, Fred Goodwin, o principal executivo do Royal Bank of Scotland, renunciou, refletindo o desejo do governo de evitar dar a impressão de que a operação de salvamento esteja recompensando os banqueiros. Ele será sucedido por Stephen Hester, o principal executivo do British Land.

Anunciando limites sobre os bônus e dividendos nos bancos nos quais o governo terá uma participação, Brown disse: "A idéia a ser seguida é de que haja recompensas justas para o trabalho duro, o esforço e a iniciativa, e não um incentivo à irresponsabilidade ou à excessiva contração de riscos pela qual o resto de nós tem pago".

Novo Bretton Woods

O premiê defendeu ainda a criação de uma nova "arquitetura financeira" que reflita o alcance econômico e do sistema bancário, que ainda é muito semelhante ao modelo desenhado durante o encontro de Bretton Woods, em New Hampshire, depois da Segunda Guerra Mundial.

A escala das jogadas do governo pegou alguns especialistas de surpresa. "O capital que está sendo levantado tem uma escala maior que a prevista previamente", disse Simon Willis, analista do NCB Stockbrokers em Londres. "A boa notícia é que isto pode colocar os bancos do Reino Unido em uma condição mais forte agora e dar a eles uma reserva para enfrentar a queda da atividade econômica".

 

 

Gazeta Mercantil
EUFÓRICA, BOLSA SOBE 14%, MAIOR ALTA DESDE INÍCIO DE 99

LUCIANO FELTRIN

A BM&FBovespa seguiu o movimento dos mercados globais e reagiu com euforia às medidas coordenadas pelas principais nações para reduzir os impactos da crise de crédito. O Ibovespa, carteira teórica composta pelas 66 ações com maior liquidez no mercado local, subiu 14,66%, para 40.829 pontos. Foi a maior alta diária desde 15 janeiro de 1999. Naquela sessão, logo após a maxidesvalorização do real em relação à moeda norte-americana, o índice subiu mais de 33%. O giro financeiro foi de R$ 5,2 bilhões.

No campo local teve repercussão positiva a medida do Banco Central (BC), que deve injetar R$ 100 bilhões, tornando mais flexíveis as regras dos recolhimentos compulsórios que as instituições financeiras realizam.

O dia de otimismo generalizado, no entanto, não ilude analistas e operadores de mercado. Os profissionais querem aguardar os próximos dias para ver de que maneira as bolsas reagirão à eficácia das medidas. "Ficou muito claro que o movimento vendedor, que já dura quatro meses mas se intensificou na última semana, tinha muito de desespero e de irracional", afirma o analista da Daycoval Asset Management, Guilherme Mazzilli. "Quem saiu vendendo sem ver, provavelmente, já ensaiou uma volta", diz.

Para Mazzilli, o movimento de volatilidade deve continuar enquanto o ambiente externo puder trazer novas repercusões. "Quedas e altas muito bruscas podem voltar a ocorrer", adverte.

Recado

Alguns analistas avaliam que, embora o sinal dado pelas autoridades monetárias mundiais tenha sido positivo, a operacionalização dos pacotes - nos Estados Unidos e na Europa - será o ponto a ser observado agora. "Os Bancos Centrais deram um recado claro: não se olha mais os manuais de economia nesse momento. Com os governos dando garantias às operações não há porque os bancos não voltarem a emprestar dinheiro entre si, empossando crédito", prevê o gerente da mesa de operações da HSBC corretora, Flavio Zullo.

Para o ex-presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Roberto Teixeira da Costa, diversos pontos do plano de salvação norte-americano - que já supera US$ 850 bilhões - ainda terão de ser mais bem detalhados. Um deles é que a que preço serão negociadas as hipotecas de má qualidade (subprime). Outro ponto que ainda causa preocupação é o que acontecerá com dois dos principais bancos dos Estados Unidos: Morgan Stanley e Golman Sachs. "O ponto de inflexão dessa crise é a falta de confiança que decorre de pouca transparência", diz. "Por isso mesmo, a forma como essas intervenções serão feitas é vital para que a situação volte a níveis de normalidade. Nos próximos tempos, ficaremos ao sabor dos impactos da colocação em prática das medidas", projeta Teixeira da Costa.

De volta às compras

Entre as dez ações mais valorizadas do Ibovespa no dia, três foram de bancos : Itaú , Unibanco e Bradesco, todas com ganhos superiores a 20% na sessão. Entretanto, papéis de empresas que dependem de crédito ou atuam, de alguma maneira, em varejo também recuperaram parte de suas recentes perdas.

Foi o caso da Ultrapar, cujas ações tiveram o maior ganho do índice. Subiram 31%, para R$ 43. Logo atrás veio o JBS. Seus papéis subiram 27%, para R$ 3,69. "Algumas ações haviam caído demais, estavam completamente descoladas de seus fundamentos", diz Zullo, da HSBC corretora.

"Imagine só como ficou ontem quem vendeu tudo no desespero visto na última semana", afirma Roberto Teixeira da Costa.

 

 

Gazeta Mercantil
PACOTE DEVE TER EFEITO IMEDIATO SOBRE LIQUIDEZ

SILVIA ROSA e JIANE CARVALHO

A ação coordenada dos governos europeus contra a crise financeira de injetar
€ 1,7 trilhão no sistema bancário, para a recapitalização das instituições e garantia dos empréstimos interbancários, trouxe uma perspectiva positiva para os mercados, amenizando a crise de confiança entre os investidores.

Para a economista-chefe do Banco ING, Zeina Latif, a elaboração de um plano conjunto dos governos europeus tem um efeito importante na medida em que reafirma o compromisso de uma ação global para conter a crise. "Havia um diagnóstico de que apenas o pacote dos Estados Unidos de socorro aos bancos não era suficiente para melhorar a liquidez no mercado de crédito", diz.

Só a Alemanha, principal potência econômica da União Européia, anunciou um plano de resgate de € 480 bilhões para o resgate do setor bancário alemão.

Ela ressalta que a ação coordenada pelos bancos centrais de cortar as taxas básicas de juros na semana passada também deve contribuir para melhorar a liquidez no sistema interbancário.

Nesse sentido, Zeina destaca que o modelo adotado pelos governos europeus de capitalização dos bancos tem eficácia maior que o pacote anunciado pelo Tesouro norte-americano, que prevê um montante de US$ 700 bilhões para a compra de ativos podres das instituições bancárias, além da intervenção no capital de uma ampla gama de bancos. "O plano europeu tem uma eficácia mais rápida do ponto de vista de impacto imediato sobre os mercados, diferente do plano norte-americano, que por envolver a determinação de como será feita a compra dos ativos deve ter uma implantação mais difícil".

Para o estrategista-chefe da CreditAgricolle, asset do banco Calyon, Vladimir Caramaschi, pela primeira vez se atacou o problema da falta de liquidez global de frente. "O diagnóstico do problema já vinha evoluindo nas últimas semanas, culminando agora com uma ajuda direta aos bancos, na Europa, diferente do pacote do Paulson, que prevê compra de ativos podres", explica Caramaschi. Outro fator, citado pelo economista, é o tamanho do volume a ser injetado nos bancos. "A magnitude do socorro europeu ao setor financeiro surpreendeu positivamente, conseguindo acalmar investidores".

O plano anunciado pelo governo britânico de ajuda aos bancos também prevê a liberação de US$ 64 bilhões para capitalizar os três principais bancos Royal Bank of Scotland (RBS), HBOS e Lloyds TSB, em que passa se tornar o principal acionista das instituições financeiras.

Caramaschi, embora considere o plano europeu mais eficiente do que o aprovado pelo Tesouro americano, não vê com bons olhos a estatização de bancos. "Tudo bem comprar ações das instituições socorridas, se possível as que não dão direito a voto, mas daí a assumir o controle das instituições não acho uma boa a idéia, com o tempo a tendência é de ingerência política", diz. "Depois, como já ocorreu na Suécia, o estado revende as ações e retoma os recursos destinados ao banco no momento ruim".

Impacto limitado

Zeina destaca que a capitalização dos bancos deve contribuir para diminuir a pressão sobre as taxas de juros, que alcançaram patamares recordes com a retração do mercado interbancário, além de amenizar o quadro de estresse que vinha marcando a atuação dos investidores nos mercados. Porém, a possível melhora da liquidez no mercado de crédito não deve evitar, a princípio, o quadro de recessão econômica que vem se desenhando na Europa. "Acredito que houve uma mudança de patamar para um cenário mais positivo, o que não quer dizer que o pior já passou", diz.

O economista da Modal Asset Management, Ivo Chermont, também concorda que só o pacote não vai ser suficiente para evitar a recessão no zona do euro. "Ainda não é possível saber se esse dinheiro será suficiente para sanar todas as baixas contábeis que devemos ver nos próximos balanços. Além disso, mesmo que os bancos tenham mais capital, será muito difícil evitar uma contração no mercado de crédito", afirma.

No entanto, Chermont destaca que a garantia dos depósitos bancários adotada pelos governos europeus é importante para reestabelecer a confiança nos mercados interbancários. "Os governos deixaram claro que se for necessário poderão organizar novos pacotes em conjunto para conter o impacto da crise", diz.

Efeitos no Brasil

A repercussão das medidas dos governos europeus e dos Estados Unidos, aliada a ação do Banco Central, que prevê a disponibilização de cerca de R$ 100 bilhões ao sistema financeiro nacional com a liberalização das regras de recolhimento do compulsório, devem contribuir para amenizar a falta de liquidez no mercado de crédito, porém Zeina acredita que o custo de funding deve continuar alto, com os bancos mais seletivos. "A medida do BC pode atenuar a retração do mercado de crédito, mas os bancos ainda estão bastantes cautelosos na concessão de empréstimos".

A atuação do Banco Central no Brasil foi elogiada por Caramaschi. "Teve muito exagero no comportamento do mercado País, mas a liberação do compulsório, assim como o uso das reservas para reduzir o dólar devem fazer os negócios voltarem ao normal".

O BC vem adotando a flexibilização do compulsório recolhido pelos bancos com o objetivo de melhorar a liquidez no mercado de crédito interno.

O estrategista da CreditAgricolle, no entanto, acha que novos episódios de volatilidade não estão descartados. "Volatilidade sim, muita coisa pode acontecer, mas aquele pânico todo pode ter sido posto de lado".

O que vai sobrar desta crise, diz Caramaschi, é uma volta ao passado com investidores preferindo produtos menos sofisticados. "Securitização e outros ativos mais complexos tendem a perder mercado, assim como veremos uma redefinição na estratégia de negócios de muitos bancos de pequeno e médio portes".