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Boa leitura!

(Segunda-feira, 19 de Maio de 2008)
Valor Econômico
RIGOR E PERSISTÊNCIA MARCAM TRAJETÓRIA DO NOVO MERCADO

Governança Corporativa: Inspirado na Alemanha, modelo nasceu em 2000 e só engrenou nos últimos anos.

DANIELO FARIELLO E GRAZIELLA VALENTI, de São Paulo

Maria Helena Santana, presidente da CVM e uma das criadoras do Novo Mercado: "Não tínhamos nada a perder".

Tudo começou com uma idéia alemã, de criar um mercado com níveis de governança diferenciados para englobar as ações da Nova Economia - como costumava-se chamar o setor de tecnologia até o estouro da bolha no ano 2000. No natimorto Neuer Market alemão, a bolsa brasileira tomou inspiração para um projeto mais ousado, com regras mais rígidas e aberto a todas as companhias listadas. O grau de exigência do Novo Mercado brasileiro era tanto que, criado em 2000, ele só teve as primeiras adesões dois anos depois.

Mas o elevado nível das obrigações é considerado fator fundamental para o sucesso atual. "Não tínhamos nada a perder", contou Maria Helena Santana, atual presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e, na época, diretora de relações com as empresas da bolsa paulista.

Na época, porém, a apreensão era tanta que, em 2003, a Bovespa pensou em rever o modelo. "Fizemos uma audiência restrita para avaliar a situação. Mas o que ouvimos do mercado foi: fiquem firmes", disse Maria Helena.

Na época da criação do Novo Mercado, a bolsa brasileira tinha acabado de passar por uma crise quando, na época das privatizações, os minoritários não receberam proporcionalmente os mesmos valores que o governo na venda das estatais. "Havia também menos transparência na gestão das empresas", lembra João Batista Fraga, atual diretor de relações com as empresas da Bovespa, citando as exigências de publicação de balanço contábil em modelo internacional como exemplo.

Com tantas novidades, a estreante do Novo Mercado arcou com o bônus de conseguir fazer a oferta, mas o ônus de explicar tudo para os investidores. A Companhia de Concessões Rodoviárias (CCR), que inaugurou o Novo Mercado, conta que Maria Helena e a equipe da Bovespa foram fundamentais para convencer os investidores das virtudes da então novidade. "Em 2002, havia muito insegurança entre os investidores", conta Renato Vale, presidente da CCR. Hoje, falar na oferta que é Novo Mercado faz com que a conversa com o investidor comece passo à frente, diz Mauro Rodrigues Cunha, presidente do conselho do IBGC.

Hoje, depois de 106 aberturas de capital, é fácil constatar que a Bovespa fez bem em manter-se firme às críticas de que os novos ambientes eram excessivamente exigentes. "Fomos suficientemente resistentes e, na hora que o mercado abriu, a regra já estava lá, o investidor já conhecia", destacou Maria Helena, lembrando que o crescimento da economia doméstica e o cenário de grande liquidez internacional também tiveram papel fundamental no renascimento do mercado de capitais brasileiro. Porém, sabe dos méritos do Novo Mercado no processo. "Foi importante. Se não fosse assim, outros emergentes teriam sido o quinto país em volume de emissões no ano passado e não o Brasil", disse.

O grande destaque do Novo Mercado foi ter sido construído em conjunto por investidores, bolsa, governo, empresas e os demais agentes do setor, destaca Mike Lubrano, ex-diretor de governança do IFC. "Mais que isso, a adesão é voluntária pelas empresas."

Daqui para frente, porém, ficou mais difícil que o Novo Mercado evolua, principalmente porque são necessários dois terços das empresas para mudar as regras, o que se tornou mais complicado à medida que o grupo cresceu.