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Esta é uma coletânea diária das notícias sobre
meio ambiente divulgadas nos mais importantes jornais do país.
Boa leitura!
(Sexta-feira,
30 de Maio de 2008)
Valor Econômico
VALOR ESPECIAL CRÉDITOS DE CARBONO
LIMPEZA NO AR
Com negócios acima de US$ 60 bilhões por ano no mundo, o mercado de carbono tende a crescer mais, principalmente na União Européia. Há, no entanto, uma demora para a aprovação de projetos.
ALDEM BOURSCHEIT, para o Valor, de São Paulo
O mercado global de créditos de carbono, mecanismo financeiro que tenta frear o aquecimento planetário reduzindo a poluição, surgiu há três anos, quando entrou em vigor o Protocolo de Kyoto. Mesmo jovem, já movimenta cifras de fazer inveja ao Produto Interno Bruto (PIB) de alguns países e promete crescer ainda mais, alimentado pelos cortes de emissões obrigatórios em nações mais ricas e sinais favoráveis dos Estados Unidos nas negociações multilaterais do segundo período do protocolo. Em jogo, o futuro do clima.
Conforme Marcelo Rocha, pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Esalq/USP, há mais de uma década Brasil e Estados Unidos lançaram a idéia de um fundo de desenvolvimento limpo atrelado à redução da poluição mundial. Isso aconteceu durante os debates sobre o Protocolo de Kyoto, no Japão. O acordo pede cortes de 5,2% nos níveis de poluição registrados nos países de 2008 a 2012. Quem não pudesse cumprir essas metas, depositaria dinheiro no fundo. Assim, países em desenvolvimento teriam recursos para atacar sua poluição.
O tema será debatido hoje no Seminário Crédito de Carbono e Mudanças Climáticas - Propostas de Desafios para a Sustentabilidade, em São Paulo, promovido pelo Valor e patrocínio da Brenco e ArcelorMittal.
A escolha da diplomacia, no entanto, foi pelo Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), instrumento que criou o mercado de créditos de carbono. O protocolo passou a vigorar em 2005, com sua ratificação pela Rússia. Até hoje os Estados Unidos não ratificaram o acordo. "Obrigar países a cumprirem metas é uma idéia nunca aceita de forma confortável. Um instrumento de mercado é mais flexível", diz Rocha, que também é consultor da Flying Rivers.
Na prática do MDL, países ricos e historicamente mais poluidores compram créditos gerados por projetos de nações em desenvolvimento, focados em geração de energia e produção mais limpas. Cada crédito negociado livra a atmosfera de uma tonelada de poluentes. Poluir menos abranda o efeito estufa e as mudanças clima. Baseado no sistema, o comércio de carbono cresce nos moldes oficiais de Kyoto e em mercados alternativos.
Em 2007, segundo o Banco Mundial, os negócios de carbono movimentaram US$ 64 bilhões, quantia semelhante à soma dos PIBs de Angola e El Salvador. O valor é o dobro do comercializado em 2006 e seis vezesmaior que há três anos. Desde 2005, foram emitidos 145 milhões de certificados de emissões reduzidas (CERs, sigla em inglês) junto ao MDL.
Até 2012, quando valem as primeiras metas do protocolo, 214 milhões de CERs podem ser lançados por ano. Isso só com os 1059 projetos registrados nas Nações Unidas. Cerca de 50 países negociam créditos de carbono via MDL. Os líderes em projetos são: Índia (339), China (214) e Brasil (134). Outros 45 foram aprovados pelo Ministério da Ciência e Tecnologia. Juntos, esses países somam 65% das iniciativas com sinal verde das Nações Unidas. "O Brasil movimentou em 2007 cerca de US$ 500 milhões. O mercado só vai parar de crescer com a queda do aquecimento global", diz Rocha.
A maior fatia do mercado global, todavia, pertence a mercados paralelos, na América do Norte, Ásia e, principalmente União Européia, que promete cortar 8% em emissões até 2012. Do total negociado no ano passado, US$ 12,8 bilhões foram no âmbito de Kyoto. "O mercado europeu domina os negócios de emissões. E ele deve crescer tanto em volume quanto em dólares", diz Joseph Stanislaw, consultor da Deloitte e presidente do JAStanislaw Group.
As empresas mais poluidoras dos 27 países do bloco europeu recebem uma outorga com limites anuais para emissões. Ultrapassar a barreira exige compra de créditos de carbono. Se poluírem menos, negociam os certificados excedentes. Como 40% das concessões são do setor de energia (termelétricas a gás e carvão), a procura por créditos é intensa. "É o maior mercado do mundo. Deve movimentar €45 bilhões este ano", diz Maurik Jehee, superintendente de créditos de carbono do banco Real/ABN Amro.
O peso financeiro das negociações globais de carbono é acompanhado por flutuações de preços e certa lentidão na aprovação de projetos. As cotações variam de € 10 a 15 por tonelada. Cada projeto demora em média um ano para ser aprovado no país de origem e receber aval do MDL. Os preços do gás, carvão e petróleo influenciam a demanda e os valores dos créditos de carbono. "As empresas avaliam suas alternativas para combustíveis, levando a variações de preços, como em qualquer mercado", diz Jehee.
Desde 2005, o Brasil emitiu cerca de 20 milhões de CERs e, com base nos projetos registrados nas Nações Unidas, outros 18 milhões de certificados devem ser lançados por ano, até 2012. Com energia gerada em barragens, os projetos nacionais são focados em aproveitamento de gás de aterros sanitários e geração de energia com biomassa. Daí a "vantagem" da Índia e China, que usam o mercado de carbono para cortar gases que afetam a camada de ozônio e esquentam o planeta e também a queima excessiva de petróleo, carvão e outros combustíveis fósseis.
Com o futuro esgotamento das possibilidades hidrelétricas, o Brasil tende a sujar sua matriz energética, com mais termelétricas. A alternativa, diz Marco Fujihara, responsável pela divisão de sustentabilidade do Instituto Totum, é investir em tecnologias limpas e criar um saldo para o futuro energético. Mas falta definição interna para a área do carbono. "A cada dia, os créditos se tornam um produto financeiro, uma commodity internacional. Enquanto isso, não sabemos nem o que é carbono no mercado brasileiro. China, Índia e Europa já fizeram sua lição de casa", diz.
O primeiro e único leilão nacional dentro das regras do MDL aconteceu em setembro de 2007, capitaneado pela Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F). Foram 808 mil toneladas de carbono do estatal Aterro Bandeirantes. A prefeitura de São Paulo pensa em novas negociações. No Congresso, tramitam projetos de lei para ordenar e estimular o mercado interno, mas o tema é mal digerido no parlamento. Regular o mercado brasileiro é fundamental para oportunidades de negócios. "Não andamos o necessário. Poderíamos usar o Protocolo de Kyoto para aquecer a economia interna e elevar a competitividade nacional nos mercados globalizados", afirma Fujihara.
Para Virgílio Gibbon, coordenador da FGV Projetos, o setor de energias renováveis será um grande filão no mercado de carbono, externo e interno, mesmo que a matriz brasileira gere poucos créditos. Segundo ele, é viável reduzir a queima de diesel para geração elétrica no norte do país e investir no potencial termelétrico renovável, com bagaço de cana, casca de arroz e serragem, além de fomentar o plantio de árvores para carvão, insumo básico da siderurgia nacional. "Nossa matriz limpa já alaga grandes áreas de floresta, emitindo metano e outros gases que aumentam o efeito estufa. O país não precisa enveredar para uma matriz mais suja."
Segundo ele, milhões de hectares desmatados na Amazônia seriam bem aproveitados para o plantio de eucaliptos e pinus, incorporando créditos de carbono e poupando matas nativas. A cada ano, no entanto, mais florestas virgens são derrubadas. Gibbon alerta que a exportação de biocombustíveis pode prejudicar o MDL. Segundo ele, países ricos que compram álcool demandam menos créditos de carbono, e isso pode reduzir os investimentos em nações emergentes. "Quanto mais se exporta combustível limpo, melhor para os países ricos. Isso não é levado em consideração nas discussões sobre o futuro do protocolo de Kyoto", diz.
Segundo Stanislaw, da Deloitte, colocar os custos do carbono nas equações energéticas nacionais pode definir novas matrizes geradoras. Entre os combustíveis tradicionais, o gás natural pode levar vantagem, pelo baixo nível de poluentes. Já o carvão mineral, usado para produzir ferro e aço, é altamente poluidor. Investir na captura de carbono e em tecnologias limpas é a nova regra do jogo. "Energias eólica, solar e nuclear serão beneficiadas", diz.
Apesar dos bilhões de dólares em circulação, o mercado de carbono é parte da engrenagem que tenta conter o aquecimento do planeta. Para Fujihara, o Protocolo de Kyoto e os mercados alternativos são os únicos instrumentos com resultados concretos contra mudanças do clima. Mesmo assim, a Europa, dona da maior fatia de negócios, tem elevado emissões em transportes e outros setores de consumo, livres do mesmo controle da indústria. "O mercado não resolverá tudo, é óbvio. O aquecimento do planeta é um problema bem maior que os números do mercado."
Os holofotes estão voltados para os debates sobre a continuidade do Protocolo de Kyoto. As apostas são de metas mais rígidas. Na conferência de Bali, em dezembro passado, os Estados Unidos se engajaram mais às discussões, enquanto os três candidatos à presidência do mais poluidor dos países se comprometeram com a agenda climática. As eleições americanas, no entanto, prometem deixar as negociações sobre Kyoto em banho-maria, ao menos até o início de 2009. "Quem ganhar a eleição fará deste tema uma prioridade. Os Estados Unidos se engajarão em definitivo na luta contra o aquecimento global", afirma Stanislaw.
O Brasil, conforme o embaixador extraordinário para mudança do clima Sérgio Serra, manterá sua posição atrelada ao grupo dos países emergentes nos debates sobre o futuro do Protocolo de Kyoto, de não definir metas para cortes em emissões e pedindo transferência de tecnologias e dinheiro que fomentem um crescimento econômico limpo. Segundo ele, o combate ao desmatamento e o incentivo aos biocombustíveis são resultados internos que pesam na balança das negociações multilaterais. "Certamente um dia assumiremos metas, mas não agora", diz.
Para o coordenador do Instituto Vitae Civilis, Rubens Born, apesar da movimentação crescente nos meios empresarial e civil em torno das mudanças do clima, as emissões crescem e os governos agem lentamente contra o problema. Segundo ele, a estratégia brasileira é equivocada, pois assumir metas internas seria a melhor maneira de reforçar a ajuda internacional no combate ao desmate da Amazônia e para obter tecnologias energéticas mais limpas. "Esse deveria ser nosso esforço. Prepararia o terreno para a futura adoção de metas obrigatórias. O país ignora o tema desde a Rio92. Estamos atrasados 16 anos com nossa política nacional sobre mudanças do clima. Todos os governos têm responsabilidade", ressalta.
Seja qual for o futuro do Protocolo de Kyoto, ele estará na pauta de centenas de países nos debates multilaterais. O Brasil, país megadiverso e grande produtor agropecuário, é peça-chave na condução das negociações no G-77, grupo dos países em desenvolvimento.
BIOCOMBUSTÍVEIS
ÁLCOOL DE CANA VIRA UM CABO-DE-GUERRA
De solução para problemas climáticos, produto passa a ser visto como ameaça pelos europeus.
Reichstul: ataques contra o etanol não afetarão os planos de investimentos da Brenco, de R$ 5,5 bilhões até 2015.
EUGÊNIO MELLONI
O álcool combustível produzido a partir da cana-de-açúcar virou, recentemente, alvo de intensos ataques de autoridades européias, que vêem na expansão da produção de biocombustíveis ao redor do mundo a razão de uma elevação da inflação dos alimentos. A própria Organização das Nações Unidas (ONU) deu o tom da condenação aos biocombustíveis, com as declarações do relator especial da organização para o Alto Comissariado de Direitos Humanos, Jean Ziegler, de que a sua produção em massa representa um crime contra a humanidade por seu impacto nos preços mundiais dos alimentos.
O presidente da Companhia Brasileira de Energia Renovável (Brenco), Philippe Reichstul, afirma que os ataques desferidos contra o etanol não afetarão os planos de investimentos da empresa, de R$ 5,5 bilhões até 2015 - dos quais R$ 4,5 bilhões serão aplicados na construção de usinas e R$ 1 bilhão para logística e comercialização. "O foco dos ataques é o etanol produzido a partir de grãos", diz Reichstul. "O etanol é cada vez mais uma idéia acertada, se se levar em conta que o preço do barril do petróleo já atingiu o patamar de US$ 129", diz.
A expectativa da Brenco - que conta além de Reichstul com acionistas do porte do ex-presidente americano Bill Clinton, Steve Case, ex-AOL Time Warner, o investidor Vinod Khosla, um dos fundadores da Sun Microsystems, o empresário Ricardo Semler e James D. Wolfensohn, o ex-presidente do Banco Mundial - é erguer oito novas usinas dedicadas à produção de etanol, com o objetivo de atingir uma capacidade de processamento de 44 milhões de toneladas de cana por ano em 2015. Com tal capacidade, a Brenco produzirá cerca de 3,8 bilhões de litros de etanol por ano, 15% da produção nacional e 4% da produção mundial.
Para o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, há de tudo nesses ataques ao etanol: interesses comerciais, desinformação e má-fé. Segundo ele, "estão misturando o etanol produzido no Brasil com o etanol fabricado nos Estados Unidos sem considerar que um é feito de cana, que não afeta a produção de alimentos, e o outro, de milho, que afeta."
Geraldine Kutas, assessora internacional da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), afirma que as pressões que ocorrem na Europa poderão influenciar a legislação relativa a energias renováveis que está sendo discutida pela União Européia, que deverá ser definida até o fim. As discussões envolvem, por exemplo, a definição da obrigatoriedade da mistura de 10% do etanol à gasolina até 2020. "Se, por exemplo, não for obrigatória a mistura, o mercado para o álcool brasileiro tende a crescer pouco", diz Geraldine.
Segundo a assessora, o álcool brasileiro desfruta de grande competitividade no mercado europeu, suprindo 30% do consumo mesmo pagando uma taxa de importação de € 0,19 centavos de euros por litro. Atualmente, são exportados para o continente cerca de 800 milhões de litros de álcool combustível.
"Esse movimento na Europa não afetará o ímpeto do álcool brasileiro, mesmo porque o grande mercado para o álcool combustível produzido no Brasil é o doméstico", diz o diretor do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura (CBIE), Adriano Pires. Segundo dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), estatal que cuida do planejamento do setor energético, o consumo doméstico de álcool hidratado teve aumento de 46,1%, chegando a 10,4 bilhões de litros em 2007.
Pires considera que as pressões, que ele julga terem embasamento mais político que técnico, tendem a ser superadas com o passar do tempo. "São as barreiras típicas de quem ainda não tem uma tecnologia e deseja barrar ou retardar a entrada no mercado de quem tem", avalia Pires. "Mas os biocombustíveis vieram para ficar", acrescenta.
Segundo o Balanço Energético Nacional (BEN) 2008, publicado pela EPE em maio, os produtos derivados de cana apresentaram participação de 16% na composição das fontes primárias usadas no país em 2007, superando pela primeira vez a energia hidráulica, que teve participação de 14,7%. A cana só foi superada na matriz energética pelo petróleo e seus derivados, com participação de 36,7%.
Também no exterior, a escalada dos preços do petróleo e a manutenção de elevados índices de crescimento de economias importantes, influenciaram para que biocombustíveis conquistarem espaço. Segundo dados da Renewable Energy Network for the 21th Century e WorldWatch Institute, a produção de biocombustíveis ao redor do mundo ultrapassou 53 bilhões de litros em 2007, aumento de 43% frente a 2005. A produção mundial de etanol representou cerca de 4% dos 1,3 trilhão de litros de gasolina consumidos no planeta no mesmo ano.
REGULAÇÃO REDUZ POTENCIAL DO PAÍS
THIAGO VELLO, para o Valor, de São Paulo
Quando o Protocolo de Kyoto estabeleceu o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) como uma das ferramentas para ajudar os países industrializados a cumprirem a meta de redução dos gases de efeito estufa (GEE) até 2012, o novo instrumento foi comemorado por países emergentes, principalmente o Brasil, que se encontrava na melhor posição para desenvolver projetos desse tipo. E, de fato, o Brasil saiu à frente nesse mercado.
Passados alguns anos, entretanto, o Brasil vem perdendo espaço no mercado do MDL, hoje dominado por China e Índia. Segundo os últimos dados da Organização da Nações Unidas (ONU), o Brasil tem, atualmente, 134 projetos, o que corresponde a 12% do total de em atividade no mundo. Já a Índia conta com 339 e a China, 214.
As razões para o aumento da distância para seus pares emergentes são diversas, apontam os especialistas. E vão desde a matriz energética brasileira, já muito concentrada em fontes renováveis, passando pelo arcabouço regulatório brasileiro e a cultura de sustentabilidade ainda pouco desenvolvida no país. "O Brasil foi o precursor do MDL, mas diria que sua queda se deve mais ao crescimento dos outros países, justamente por ter uma produção de energia limpa mais desenvolvida, o que reduz seu potencial em relação a nações como China e Índia, que ainda têm um longo caminho a percorrer", diz Maurício Costa, diretor da Ecosecurities, empresa de consultoria, desenvolve projetos de MDL e comercializar créditos de carbono.
Para o especialista, embora existam obstáculos, há muito a se explorar no mercado brasileiro de redução das emissões de gases poluentes. Hoje, 49% dos projetos são de energia renovável, sendo que 16% atuam para a redução na emissão de metano, principalmente na suinocultura e só 14% se referem a substituição de combustível fóssil. Os projetos que reduzem a emissão de gás carbônico (CO2) são a maioria, com 64% de participação, seguidos de metano (32%) e óxido nitroso (1%). Os dados da ONU mostram que o Brasil ocupa a terceira posição no ranking dos países que mais reduziram suas emissões de gases, tendo diminuído a queima de CO2 em 38,7 milhões de toneladas por ano, 7% do total mundial.
Os maiores problemas que precisam ser corrigidos nesse mercado são de ordem regulatória. Segundo consultores, há uma burocracia excessiva, que torna moroso o processo de aprovação dos projetos pela comissão inter-ministerial criada para deliberar sobre as propostas. "O Brasil é o país onde esse processo é o mais demorado. Aqui a comissão se reúne a cada dois meses, elevando o prazo para a aprovação dos projetos para seis meses, no mínimo", diz Flávio Pinheiro, diretor de novos negócios da Econergy, empresa que presta consultoria e desenvolve projetos de MDL.
EMPRESA REFORÇA BUSCA DE EFICIÊNCIA
De São Paulo
Enquanto o governo federal e os agentes do mercado de carbono discutem a necessidade de melhorias no arcabouço regulatório para favorecer o maior desenvolvimento de projetos de Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) no Brasil, empresas instaladas no país investem em seus programas de sustentabilidade mirando a eficiência e atingindo, por conseqüência, os lucros provenientes da negociação de créditos de carbono.
A lógica das companhias é a de que investir em projetos de co-geração com energia limpa, aterros sanitários ou redução da emissão de gases são atividades que geram ganhos operacionais e devem ser feitas independentemente do lucro que a negociação com créditos de carbono possa trazer.
Esse é o caso da ArcelorMittal Tubarão, siderúrgica que foi a primeira indústria de aço do mundo a obter certificação junto às Organizações das Nações Unidas (ONU) para comercializar créditos de carbono obtidos a partir de um projeto de reaproveitamento de gases para geração de energia limpa. O projeto, iniciado em 2004, recupera gases emitidos em uma de suas plantas, que são reaproveitados em quatro usinas termelétricas da empresa, com capacidade para geração de 286 MW.
"Esse projeto nasceu de uma necessidade de tornarmos nosso processo de consumo energético mais eficiente. Hoje, no Brasil, há uma dúvida sobre a segurança da oferta energética e, com esse projeto, nós buscamos a estabilidade do fornecimento. Os créditos de carbono são apenas uma conseqüência", afirma Luis Antonio Rossi, gerente de meio ambiente da empresa.
Com a aprovação do registro junto à ONU, a ArcelorMittal, está autorizada a comercializar 214 mil toneladas de CO2 geradas até o momento. Por ser uma multinacional, essa venda deve ser realizada internamente para plantas da empresa em países com déficit ambiental. "A venda desses créditos, no entanto, é pouco importante. Se pensarmos nos ganhos de eficiência e estabilidade que teremos, o projeto já se paga", diz Rossi.
A Irani Papel e Celulose também registrou na ONU, em 2005, seu primeiro projeto de co-geração de energia por meio da geração de vapor proveniente da queima de resíduos florestais - biomassa. "Esse material era descartado e liberava na atmosfera. Com o projeto, conseguimos a geração de 7 MW/h além da possibilidade comercializar 160 mil toneladas de CO2 ao ano, até 2012", diz Odivan Cargnin, diretor financeiro de relações com investidores. (T.V.)
Florestas Remuneração para manter as matas nativas pode representar um grande potencial para o Brasil
MERCADO TESTA REDUÇÃO DE DESMATAMENTO
SILVIA CZAPSKI
Não é à toa que Virgílio Viana, diretor-geral da Fundação Amazonas Sustentável (FAS), afirma que o mercado caminha mais rápido que a criação de normas internacionais de combate ao aquecimento global. Estabelecida por lei estadual em 2007 com aporte inicial de R$ 40 milhões - metade doada pelo Bradesco e resto pelo governo do Amazonas -, a FAS firmou uma parceria em abril com a rede de hotéis Marriott para concretizar, segundo Viana, uma idéia que acirra debates no chamado Pós-Kyoto, que regulamentará o mercado de carbono a partir de 2012.
Com o acordo, a rede Marriott repassará US$ 2 bilhões à FAS em quatro anos, para sustentar o plano de gestão da Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Juma, em Novo Aripuanã (AM). Seu propósito é ser o primeiro programa brasileiro de redução das emissões do desmatamento e da degradação florestal, chamadas de Redd.
Pelo Protocolo de Kyoto, que vence em 2012, só plantios se enquadram nos Mecanismos de Desenvolvimento Limpo (MDL), que combatem o aumento do efeito estufa. Como a maior parte das emissões de CO2 brasileiras provém de desmatamentos e queimadas, a remuneração para manter a floresta em pé representa um grande potencial para o país, indica o consultor Fábio Feldmann, que aposta na inclusão da nova modalidade no Pós-Kyoto.
Presente em 67 países, a Marriott entende sua parceria com o FAS como compensação da emissão de 2,9 milhões de toneladas por ano por suas 3 mil unidades, calculada com ajuda da ong Conservação Internacional. A partir de setembro, hóspedes serão instigados a compensar o CO2 gerado com suas estadias. "O pagamento, de U$ 1 por pernoite por hóspede, será voluntário", diz Viana.
Relatando que a reserva de Juma possui 590 mil hectares e gera 115 mil toneladas por ano de carbono, ele conta que o plano ambiental pagará uma bolsa-floresta a seus 500 moradores para atenuar a pressão sobre corte de árvores. A meta é baixar as emissões para 50 toneladas por ano. "O que se remunera são as 65 mil toneladas por ano não lançadas."
Ponto a favor das 34 unidades de conservação do Amazonas, que ocupam 17 milhões de hectares. Viana baseia-se num cálculo do Instituto de Pesquisas da Amazônia (Inpa) para dizer que cada hectare de floresta amazônica conserva 0,6 tonelada por ano de carbono. No mercado voluntário, diz ele, a tonelada de "carbono evitado" já vale US$ 3,8.
Valor relativo mais alto deverá receber a AES Tietê que, após três anos de entraves na Junta Executiva do MDL, órgão da Organização das Nações Unidas (ONU), emplacou o primeiro projeto brasileiro de seqüestro de carbono para plantio de árvores nativas. A AES Tietê promete restaurar 9,6 mil hectares de matas nas margens de cinco de seus reservatórios no Estado de São Paulo. Desde 2001, cerca de 14% das 16 milhões das mudas previstas chegaram ao campo.
Em 20 anos, serão 3 milhões de toneladas de carbono capturadas. No mercado certificado, elas valem hoje US$ 26 a tonelada. "Estamos avaliando propostas para a comercialização", diz Demóstenes Barbosa da Silva, diretor de gestão ambiental e créditos de carbono da AES Brasil.
Mesmo antes da metodologia aprovada, o plantio de árvores nativas encontrou bom chão em iniciativas voluntárias. "No início, houve até um oba-oba. Todos queriam plantar para neutralizar suas emissões. Mas a restauração florestal é um processo de longa maturação. Muitas empresas recuaram", avalia Mario Mantovani, diretor de mobilização da Fundação SOS Mata Atlântica, que realiza esses plantios por meio do programa Florestas do Futuro.
Fornecidas por mais de 30 viveiros próprios ou conveniados, as árvores seguem para terras privadas, preferencialmente perto de cursos d'água. A auditoria técnica é da Escola Superior Luis de Queiroz (Esalq/USP), e a financeira, da PriceWaterhouse.
Principal mantenedor da SOS Mata Atlântica, o Bradesco - que, segundo a assessoria de imprensa do banco, repassou R$ 62 milhões em 2007 provenientes de vendas de produtos da empresa relacionados à SOS - abateu 22,3 mil tonneladas de CO2 emitidos em 2006, com o plantio de 37,2 mil árvores. O número foi fixado num inventário feito pela área de responsabilidade socioambiental do Bradesco, com a assessoria Key Associados. O banco também abraçou a redução da produção de resíduos, do consumo de energia e de água, que baixam as emissões de carbono.
"Quando uma empresa quer um inventário de seu processo industrial, propomos um projeto adicional de ecoeficiência, que amaina as emissões e os custos operacionais. Só recomendamos plantios para neutralizar emissões inevitáveis", diz Alexandre Lopez Hernandez, gerente de projetos de sustentabilidade da Key. Uma tendência, diz ele, são inventários de viagens de executivos, almoços e eventos. É o caso da maior festa junina do país, em Caruaru (PE), para qual a Key propõe o plantio compensatório de mais de dez mil mudas.
Ao contrário da SOS Mata Atlântica, Osvaldo Stella Martins, diretor de meio ambiente da Iniciativa Verde, afirma que a cada ano triplica a demanda por plantios que contrabalançam o lançamento de carbono na atmosfera. A organização atua em áreas de proteção públicas, catalogadas pela Secretaria Estadual de Meio Ambiente de São Paulo. Das 120 mil mudas colocadas nos últimos 12 meses, diz ele, 11,5 mil provém do Circuito Banco do Brasil de Vôlei de Praia. Outros de 5% foram patrocinados por pessoas, que querem repor o CO2 emitido em suas atividades diárias. Assim como outras do ramo, a Iniciativa Verde oferece uma calculadora online para os cálculos.
CRESCE A PROCURA POR PROGRAMAS QUE AJUDAM A CONTROLAR EMISSÕES
JANDER RAMON
O alerta feito no início do ano passado pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), da Organização das Nações Unidas (ONU), sobre os riscos do aquecimento global parece ter surtido efeito pelo menos sobre uma parte considerável das empresas brasileiras. Conforme relatam alguns dos principais consultores para implementação de programas que mensuram a emissão de gases de efeito estufa por empresas, o mercado brasileiro vive um momento de crescimento explosivo por busca de informações e adoção de projetos.
"A questão ambiental passou a ter um peso maior nas organizações. Antes, o que era um foco voltado ao atendimento às questões legais e de regulação, passou a ser, neste momento, um fator estratégico", afirma o especialista Ricardo Valente, diretor da Key Associados. "Quando comparamos os números do período de janeiro a maio de 2007 com igual período deste ano, vemos que o volume de propostas que apresentamos, algumas inclusive já aprovadas, cresceu cerca de 200%", diz.
Segundo ele, o mesmo crescimento de demanda é sentido em empresas concorrentes. "Parece haver um senso comum de que a questão climática tem importância, atinge a vida cotidiana da sociedade, e as empresas também refletem essa mudança de percepção", analisa Marina Grossi, coordenadora da câmara técnica de energia e mudança do clima do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS).
Pelo fato de o Brasil não estar enquadrado na lista de países mais poluentes e, portanto, sujeitos à metas de redução de emissões de gases de efeito estufa previstos no Protocolo de Kyoto, as corporações nacionais definem voluntariamente como devem tratar o tema.
Marina observa que uma prova da evolução de comportamento empresarial está no aumento de procura para a produção de inventários de emissão de gases de efeito estufa. "Há três anos, era uma luta para que as empresas fizessem os inventários, porque, mesmo sem ter de cumprir metas de redução de emissões, os empresários entendiam que o documento era uma espécie de compromisso público", lembra. "Agora, numa virada importante, a iniciativa privada passou a ser protagonista nesse tema."
Esses inventários, diz Valente, passaram a ser o ponto de partida para o enfrentamento do problema. A principal ferramenta usada é o Greenhouse Gas Protocol (GHC), base para a norma ISO 14064, válida também para o Brasil. Com ela, a empresa consegue, em linhas gerais, identificar quais são as suas fontes de emissão dos gases de efeito estufa. A aferição envolve desde o consumo de energia elétrica, passa pelo tipo maquinário utilizado na produção e administração do negócio, e chega aos métodos de produção de fornecedores, qualificados como "emissões indiretas."
"A partir do inventário de emissões, é possível produzir um diagnóstico sobre reduções de emissões ou oportunidades para a geração de créditos de carbono e, depois, a empresa pode partir para a geração de negócios por meio da comercialização desses créditos", afirma Valente.
Um programa de introdução do GHG desenvolvido pelo CEBDS em parceria com o Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (GVces-FGV), o Ministério do Meio Ambiente e o World Resources Institute (WRI), teve procura intensa pelas empresas. Gratuito, o programa chegou a ter lista de espera de companhias. "Há uma noção muito grande de que a gestão ambiental pode se tonar uma oportunidade para as empresas brasileiras e queremos disseminar a idéia de que a redução de emissões é acessível às pequenas e médias empresas, além das grandes", diz Rachel Biderman, coordenadora-adjunta e responsável pelo programa de mudanças climáticas do GVces- FGV.
Além da comercialização dos créditos de carbono, várias outras razões motivam as empresas para reduzir as emissões. Embora o pano de fundo envolva questões humanitárias e de perenidade de existência do planeta para gerações futuras, há cada vez mais um peso maior de fator econômico.
Criada há oito anos, a organização Carbone Disclosure Project (CDP), formada por fundos de investimento responsáveis pela gestão de cerca de US$ 57 trilhões, passou a enviar questionários para que empresas de todo planeta manifestassem suas preocupações sobre o comportamento climático e quais iniciativas e metas adotavam para reduzir o volume de emissão de gases de efeito estufa.
A última versão do questionário, enviada este ano e respondida voluntariamente pelas corporações, foi mais rigorosa e detalhada. Ao longo dos anos, essas informações se tornaram condicionantes para a concessão de crédito para as companhias, sobretudo as internacionais e em mercados desenvolvidos, como Estados Unidos e Europa.
Esse comportamento também chegou ao Brasil. "Tempos atrás, o Banco Real decidiu cortar o crédito para empresas que tinham problemas de certificação da madeira utilizada. Naquele momento, foi um risco, pois a instituição poderia perder mercado, mas hoje essa é uma orientação generalizada entre os bancos", afirma Marina.
Além da pressão dos investidores, acredita-se que nos próximos anos as questões ambientais se consolidarão como barreira comercial entre os países. Embora o tema tenha evoluído nas corporações brasileiras, alertam os especialistas que ainda há um grau elevado de desconhecimento entre as empresas, sobretudo nas de médio e pequeno portes. Certamente, seja por exigência de mercado ou por percepção de oportunidade de negócio a ser criado, o tema continuará sendo prioritário.
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