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Dia Mundial da Normalização 2004
Normas conectam o Mundo



Um evento muito especial marcou a comemoração do 35º Dia Mundial da Normalização, no Brasil. A Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT, em parceria com o Conselho Empresarial de Gestão Estratégica para Competitividade da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro – FIRJAN, recebeu grande número de convidados, no dia 14 de outubro, para a apresentação de painéis que destacaram a importância da normalização nos mercados interno e externo. Houve ainda, ao final, um momento de emoção e gratidão, na homenagem a antigos normalizadores e funcionários com mais de 25 anos de trabalho na ABNT.

 

Em sintonia com o tema da comemoração deste ano, “Normas conectam o mundo”, o presidente do Conselho Deliberativo da ABNT, Pedro Buzatto Costa, disse que a normalização internacional é hoje ferramenta essencial ao sistema de comércio global. Ressaltou, entretanto, que no Brasil, como na maioria dos países em desenvolvimento, os benefícios da normalização ainda não são imediatamente aparentes. “Os empresários não podem esquecer que as normas os protegem e a certificação os garante, porém só há certificação quando há normas e, se há a necessidade de normas, estas devem refletir as melhores práticas que existem”, disse.

 

Buzatto Costa aproveitou a oportunidade para fazer um balanço das realizações administrativas na gestão 2002-2004, com ênfase para a adoção da gestão com visão empresarial. Lembrou de uma conquista histórica, obtida recentemente: a liderança do Grupo de Trabalho da ISO que desenvolverá a norma internacional sobre Responsabilidade Social.

 

Angela Costa, presidente do Conselho Empresarial de Gestão Estratégica para Competitividade da FIRJAN, depois de destacar que “as normas são instrumentos fundamentais para a competitividade de um país”, alertou para a concorrência desleal, que tem origem em contrabando, pirataria e produtos sem controle de qualidade. Seu posicionamento foi reforçado com um vídeo preparado pela entidade, que adverte sobre a necessidade de uma estratégia de ação cooperada, reunindo o Governo, a indústria, o comércio varejista e os consumidores, para acabar com esse problema.

 

O primeiro painel, A normalização e a regulamentação técnica, foi apresentado por Alfredo Lobo, diretor da Qualidade do Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial – INMETRO. Alfredo Lobo lembrou que a instituição, criada há 30 anos, inicialmente centrava suas atividades em questões de saúde, segurança e meio ambiente. Na década de 80, teve seu foco ampliado para alavancar a competitividade, por meio da ISO 9000. Em um terceiro momento, voltou-se mais fortemente ao comércio exterior. Seu Plano de Ação Quadrienal (2004 – 2007) está direcionado à atividade de avaliação de conformidade, incluindo a criação de normas, com prioridade para uma relação de 55 produtos. “O INMETRO tem de buscar reconhecimento internacional formal para nossos produtos, como a cachaça, por exemplo”, acrescentou.

 

O painel seguinte, A normalização e o setor siderúrgico e de mineração, foi apresentado por dois convidados: Rogério Tales Carneiro, gerente de Tecnologia de Ferrosos da Companhia Vale do Rio Doce - CVRD - e integrante do Instituto Brasileiro de Mineração – IBRAM; e, Rudolf Robert Buhler, superintendente do ABNT/CB–28 e representante do Instituto Brasileiro de Siderurgia - IBS.

 

A atuação da CVRD, segundo Rogério Carneiro, está focada em 14 dos principais minerais e a preocupação com as normas de certificação da qualidade tem permitido que a empresa defenda seus interesses e negócios no exterior. A participação ativa dos fornecedores, como advertiu Rogério Carneiro, é imprescindível para impedir a criação de novas exigências que prejudiquem as exportações. Ele citou o caso da indústria de minério de ferro, que tinha pequena participação na ISO até 1983 e, quando passou a seguir a normalização, entrou em franco crescimento. Destacou ainda que hoje o Brasil tem grande representatividade na ISO e é o maior exportador de minério de ferro no mercado transoceânico.

 

Já o superintendente do ABNT/CB-28, Rudolf Robert Buhler, traçou um breve perfil do Instituto Brasileiro de Siderurgia e revelou que as 24 usinas administradas por 11 empresas, em nove estados, respondem por mais de 50% de todo o aço produzido na América Latina, somando 9 milhões de toneladas de capacidade instalada. “Ano passado, o setor respondeu por 3,2% da produção mundial e o faturamento para este ano está estimado em R$ 35,2 bilhões”. As exportações brasileiras de aço, destinadas a mais de 50 países, envolvem essencialmente semi-acabados (60%), afirmou Buhler, frisando que na área de acabados o país é vítima freqüente de barreiras.

Buhler destacou que o ABNT/CB-28, que recebe suporte técnico, administrativo e financeiro do IBS, tem passado por processo contínuo de melhoria, que já resultou, por exemplo, na publicação de 479 normas no âmbito do MERCOSUL. Hoje, apenas na área de construção civil, o Comitê mantém 26 Programas Setoriais da Qualidade (PSQ), atuando no Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade da Construção Habitacional (PBQP-H).

 

A última apresentação do evento ficou a cargo de Mário Mugnaini, secretário executivo da Câmara de Comércio Exterior – CAMEX - que ali estava também representando o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Luiz Fernando Furlan. Ele discorreu sobre o tema, A normalização e o acesso a mercados, afirmando que “Só começamos a dar mais atenção aos problemas quando nos defrontamos com conflitos” e destacando que, sempre que possível, recorre-se à ISO em busca da solução, já que é impossível criar normalização específica para cada mercado. As barreiras técnicas tornam-se mecanismos para impedir o comércio, quando, ao contrário, deveriam ajudar a desenvolvê-lo. Destacou que países ricos costumam camuflar barreiras técnicas, como foi o recente caso da China em relação à soja brasileira . “As barreiras têm sido usadas para degradação de preço e é difícil derrubá-las”, afirmou Mário Mugnaini.

A normalização única para o Mercosul e a inclusão de normas na comunidade européia como um caminho para se atingir sua internacionalização foram outros pontos defendidos pelo secretário executivo da Camex. Ele resumiu sua experiência na observação final: “Em comércio vale o que é preciso ser feito e quase sempre resulta em 150% para um em 50% para outro”.

 

Tempo de homenagens

Quando a normalização ainda engatinhava no país, alguns profissionais já ofereciam seus conhecimentos para que a ABNT se desenvolvesse e assumisse a importância que tem hoje. No dia 14 de outubro, a organização manifestou sua gratidão aos seus mais antigos normalizadores: Felix Ernest Stefan Von Ranke, Alberto Vieira de Azevedo, Almôr da Cunha, Luiz Alberto Palhano Pedroso e Carlos Alberto Mendes Bezerra.
 

“Como primeiro normalizador classificador da ABNT, fui como Adão, dando nome às coisas”, comentou o engenheiro civil Almôr da Cunha, 84 anos de idade e 54 de ABNT. No dia 30 de janeiro de 1950, ele chegou para fazer normas e, aos poucos, foi ocupando vários cargos, entre eles o de presidente do ABNT/CB-02 - Construção Civil. Participou de 31 comissões de normalização e foi por duas vezes secretário do Conselho Diretor.

 

Orgulhoso de ter participado da criação da primeira norma, a NB-1, que trata do concreto armado, Almôr garante que antigamente o trabalho era mais fácil. “Tínhamos liberdade de criação, recebíamos todas as informações da indústria, mas hoje essas relações são mais fechadas. Na minha época a norma saía com consenso e a votação era apenas para homologar”.

 

Outro saudoso dos velhos tempos é o engenheiro Alberto Vieira de Azevedo, 73 anos, 34 de ABNT. Entre outras atribuições, ele foi o coordenador, em 1999, da Comissão de Estudo Especial Temporária de Acústica e responsável pela preparação da Norma de Barreiras acústicas para vias de tráfego. “Antigamente havia mais entrosamento, hoje há menos ímpeto para a criação de normas”, afirma Azevedo.

 

O engenheiro Carlos Alberto Mendes Bezerra, 66 anos, entrou na ABNT em 1973, como representante da Eletrobrás nos ABNT/CB 01, 03 e 04. Neste último, chegou a ser diretor. É coordenador da Secretaria Técnica do ABNT/ONS-34 - Organismo de Normalização Setorial de Petróleo. Ao comparar a atuação na década de 70 e a de hoje, Mendes diz que a diferença fundamental é a situação do Brasil. “Tínhamos grandes projetos em andamento, que davam forte impulso para a normalização. Hoje o trabalho é mais voltado para o exterior, tem caráter global, obrigando o normalizador a sintonizar as atividades interna e externa”.

 

Felix Ernest Stefan Von Ranke, o associado mais antigo, chegou à ABNT em 1950. Hoje é sócio-honorário. Luiz Alberto Palhano Pedroso, entre outros cargos, foi presidente da Comissão de Estudo de Ar-Condicionado e, no período de 1952 a 1953, representou a ABNT no Conselho Diretor do Centro de Estudos de Mecânica Aplicada.

 

Também foram homenageados, por contarem com mais de 25 anos de serviços prestados à ABNT, os funcionários Tânia Regina Sousa Salomão, Rosemeri Fagundes Rangel e Vitor Márcio Rodrigues Jardim e Claudete Viscaino.