Por Andreia Mendonça de Oliveira   

 

A Rotulagem Ambiental

 

As questões relacionadas à produção e ao consumo, nunca estiveram tão atreladas ao debate ambiental como no presente. Nos últimos anos o desafio ganhou status de urgência diante dos impactos ambientais das atividades humanas. Em nível global, o desafio entre os países está cada vez mais atrelado ao chamado “desenvolvimento sustentável”, e uma das ferramentas auxiliares para essa finalidade é a Rotulagem Ambiental.

A Rotulagem Ambiental é uma metodologia voluntária de certificação de desempenho ambiental e identifica a preferência ambiental de um produto ou serviço dentro de uma categoria específica. A série ISO sobre rotulagem ambiental apresenta três tipos diferentes de declarações ambientais: Tipo I, II e III:

 

Tipos de Rotulagem Ambiental

Fonte:(COLTRO, Leda 2007, p.41)

 

Certificadores no Brasil

 

Atualmente, existem três organismos de certificação que trabalham de acordo com a norma ABNT NBR 14024 (ABNT, Sustentax e Falcão Bauer), porém somente a ABNT é o único membro do Global Ecolabelling Network (GEN), na América do Sul. A Fundação Vanzolini opera o selo RGMat, que é uma certificação que engloba o conceito de Rotulagem Ambiental tipo I e de Declaração Ambiental tipo III.

 

Importância da Rotulagem Ambiental, no Guia da Cadeia de Suprimentos Sustentável das Olimpíadas Rio 2016

 

O Comitê do Rio 2016 vem encorajando fornecedores, patrocinadores e licenciados para que ofereçam produtos que possuam Rotulagem Ambiental Tipo I (selos verdes), de acordo com a ISO 14024 e estabelecidas por órgãos associados ao Global Ecolabelling Network (GEN), tais quais: ABNT Qualidade Ambiental (Brasil); China Environmental Label (China); Hong Kong Green Label (China); Green Seal (EUA); Ecolabel (EU); Eco Mark (Japan).

 

Política de Educação para o Consumo Sustentável – nov. de 2015

 

Em 11 de novembro de 2015 foi sancionada a lei nº 13.186, que institui a Política de Educação para o Consumo Sustentável, a qual pode ser considerada um marco para adoção de práticas de consumo e de técnicas de produção ecologicamente sustentáveis. Itens como: escolha de produtos que sejam produzidos com base em processos ecologicamente sustentáveis, redução de recursos naturais renováveis e não renováveis, redução de resíduos, divulgação do ciclo de vida dos produtos, permitir o direito à informação e propiciar o fomento à rotulagem ambiental incentivando a certificação ambiental de forma a garantir o consumo sustentável.

Assim, o caminho para uma sociedade sustentável se fortalece à medida que se desenvolvam critérios focados em aspectos ambientais e, consequentemente, reforça a sociedade nos seus controles na área.

 

ISO 20400 futura norma para compras sustentáveis

 

Em vias de ser publicada, a norma ISO 20400 caracteriza compras sustentáveis, sendo um grande avanço para estabelecer um padrão em que as organizações possam efetuar suas compras adotando critérios de sustentabilidade. A norma será voluntária, mas a empresa que não adotar estará provavelmente em desvantagem na concorrência, visto que o mercado, cada vez mais, exige boas práticas sustentáveis.

Essa norma irá padronizar as diretrizes para organizações buscando integrar desenvolvimento sustentável nas compras, independente da sua atividade ou tamanho, como descrito e destina-se às partes interessadas envolvidas ou impactadas pelos processos de decisões de compras.

 

As construções sustentáveis e o gerenciamento de projetos

 

É fator determinante para uma edificação dita sustentável ter um processo de projeto integrado, conciliando as demandas do cliente às características socioambientais do local de implantação, além de realizar a integração das equipes envolvidas com projetos. Quando o resultado esperado é a obtenção de uma certificação, é indispensável que se faça uma interface dos profissionais envolvidos e suas especialidades, juntamente com o conceito de englobar os aspectos de ecoeficiência no cenário de busca pelo Desenvolvimento Sustentável.

No processo convencional projetual, a troca de informações entre as especialidades de projetos complementares geralmente não ocorre, inclusive pelas execuções que incidem em períodos diferentes e, muitas vezes, são baseados em projetos de versões distintas. Fica evidente a necessidade de uma gestão centralizadora com as informações relacionadas a cada disciplina e, mais do que isso, é preciso fazer permear, em tempo, as interrelações mais profundas dos aspectos de sustentabilidade dentro de cada disciplina. Portanto, aplicar a gestão do processo de projeto integrado, desde o início, amplia o alcance dos pontos almejados em um processo de certificação para edificações, para qual o selo LEED tem ordenado quesitos.
 

Análise dos quesitos de sustentabilidade do selo LEED aplicados ao projeto do novo edifício do IPLEMG

(Fonte: FRANCO, Luiza Carvalho.. Monografia. Univ Fed MG, Escola de Arquitetura. 2012)

 

Seleção de materiais para construções sustentáveis na fase de projeto

 

A seleção de materiais é uma das fases mais importantes do projeto, pois a má escolha pode afetar a qualidade do ar interno dos edifícios, e acarretar um maior consumo de energia e água durante a fase de uso. Os materiais utilizados nas construções sustentáveis são de extrema importância para atingir certificações ambientais, porém cada certificação de construção sustentável possui seus próprios critérios.

Dentre alguns atributos de produtos que se recomendariam levar em consideração para garantir o menor impacto ambiental no ciclo de vida da construção, pode-se indicar:

 

1-   Qualidade do produto: atendimento a normas, legislações;

2-   A empresa/fornecedor/construtora deve ter um controle da legislação (ambiental, saúde e segurança);

3-   Diminuição dos impactos ambientais em todo o ciclo de vida do produto:

a) Extração de matéria - prima: os fornecedores dever ser qualificados ambientalmente;

b) Processo produtivo: evitar e/ou controlar emissões atmosféricas, geração de efluentes, geração de resíduos, derramamentos, etc;

c) Embalagem: utilizar embalagens reaproveitadas, recicladas ou recicláveis; utilizar embalagens com baixo impacto ambiental.

d) Utilização do produto: utilizar o produto de forma otimizada, garantindo que o produto terá um longo ciclo de vida útil ou poderá ser reaproveitado/reciclado;

e) Distribuição: Controle de emissões da frota que deve distribuir o produto até o local da construção.

f) Disposição Final: garantir que o produto será corretamente disposto enviando informações para o cliente final.

4-   Planejamento da vida útil: A ISO 15686-2:2012 define planejamento de vida útil como um processo de projeto que procura garantir, na medida do possível, que a vida útil de um edifício seja igual ou superior à vida estimada pelo projeto. Uma falha na estimativa da vida útil desses componentes afeta a vida útil projetada para toda a construção.

5-   Minimização das Perdas: Podemos conceituar perdas, de acordo com Agopyan et al (1998), como “todo recurso que se gasta para executar um produto sem agregar valor ao mesmo”. O consumo de materiais pode ocorrer em diferentes fases do empreendimento, conforme colocado no quadro 2 a seguir:

 

Diferentes fases de um empreendimento e a ocorrência de perdas de materiais.

Fonte: Agopyan et al (2003, p.227)

 

O projeto corretamente detalhado é fator importante contra as perdas na execução da edificação, sendo que a quantidade de material previsto num projeto é realmente necessária de acordo com o projeto idealizado.

 

6-  Instalação do produto: a instalação dos produtos em uma obra deve ser realizada de forma que se otimize o uso de recursos naturais. Para isso, é necessário fornecer corretas instruções para os funcionários que trabalham na construção.

7-  Materiais duráveis: Quanto maior for a durabilidade de um material, maior será a sua vida útil e consequentemente menor será o seu impacto ambiental.

8-  Regionalidade: A máxima exploração dos materiais locais atinge resultados extremamente positivos, tais como: desenvolvimento regional com a utilização da mão de obra local, redução de distâncias percorridas pelo transporte de produtos e valorização da comunidade com a utilização de materiais locais.

9-  Atuar na responsabilidade social e econômica das empresas, com foco na sustentabilidade.

10- Credibilidade das informações solicitadas pelas certificações de construções sustentáveis:

a)  Transparência dos critérios de certificação: é necessário colocar disponíveis, para as partes interessadas, os critérios de certificação para garantir a transparência e a credibilidade, bem como a constante atualização para novas tendências ambientais.

b)  Auditorias: para atender aos critérios estabelecidos, é necessária uma auditoria de um organismo de terceira parte independente, garantindo que todas as informações declaradas são corretas.

c)  Ensaios: realizar ensaios nos produtos para garantir que as informações solicitadas por certificações sustentáveis estão de acordo.

 

Referências

ABNT. Disponível em:<http://www.abnt.org.br/rotulo>. Acesso em: 29 de fevereiro de 2016.

AGOPYAN, V.; SOUZA, U. E. L.;PALIARI, J.C.; ANDRADE, A. Alternativas para

redução do desperdício de materiais nos canteiros de obra. Porto Alegre: ANTAC,

2003. Coletânea Habitare, vol. 2, cap.10, p.224-249.

BARBOZA, Elza Maria Ferraz. Rotulagem Ambiental–Rótulos ambientais e Análise do ciclo de vida (ACV). Brasília: IBICT, 2001.

BRASIL,  Política de Educação para o Consumo Sustentável lei nº 13.186, Brasília de 11 de novembro de 2015.

FUNDAÇÃO VANZOLINI. Disponível em - http://www.rgmat.com.br/ht/fr_documentos.htmAcesso em 02/03/2016

GEN. Disponível em: <http://www.globalecolabelling.net/>. Acesso em 1/03/2016

PORTAL DAS COMPRAS SUSTENTÁVEIS. Disponível em http://comprassustentaveis.com/iso-20400-futura-norma-para-compras-sustentaveis/. Acesso em 02/03/2016

Artigo – originalmente publicado para a Revista Gestão & Gerenciamento – edição 2016 USGBC Disponível em -  http://www.usgbc.org/credits/eq31. Acesso em 02/03/2016

 

Andreia Mendonça de Oliveira - Bióloga, Auditora líder na Norma ISO 14001, Pós Graduada em Gestão Ambiental pela FUNCEFET e MBA em Gestão de Edificações Sustentáveis pela AVM-Faculdade Integrada. Experiência em Auditorias de ISO 14001 e Rotulagem Ambiental, EIA/RIMA, licenciamento ambiental, diagnóstico ambiental, destacando a reativação do Programa de Rotulagem Ambiental Brasileiro da ABNT durante cinco anos. Atuou em três Unidades de Conservação com educação ambiental. Consultora, ministra palestras e treinamentos. Membro do Comitê de materiais do GBC Brasil e Membro do CB 38 – Gestão Ambiental da ABNT.