Por Davi Bomtempo e Sergio Monforte

O conceito de “economia circular” começou a ser explorado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) após a 3ª edição dos “Encontros CNI Sustentabilidade”, evento realizado em 2014 com o tema “Resíduos Sólidos: Inovações e Tendências para a Sustentabilidade”.

A partir de então, iniciamos a elaboração de estudos e pesquisas, além da realização de eventos e da construção de parcerias junto a empresas do setor industrial mais envolvidas com o tema, para maior aprofundamento no assunto. Um dos principais resultados desse movimento tem sido a identificação de que a economia circular tem o potencial de gerar novas oportunidades de negócios atrelados a manutenção, reuso, remanufatura, reciclagem, renováveis e recuperação energética

Para nos antecipar à pressão regulatória e auxiliar o setor industrial a ampliar o escopo de seus modelos de negócios com a agregação de novos elos nas cadeias produtivas, elaboramos três documentos que orientam o posicionamento da CNI sobre o tema, disponibilizados na página da CNI (http://www.portaldaindustria.com.br/cni/canais/industria-sustentavel/temas-de-atuacao/economia-circular/). São eles:

  • Economia Circular: uma abordagem geral no contexto da indústria 4.0 (2017);
  • Economia Circular: oportunidades e desafios para a indústria brasileira (2018);
  • Economia Circular: caminho estratégico para a indústria brasileira (2019).

Entre as demais ações desenvolvidas neste período, destacamos também as mais recentes (2019):

  • Encontro internacional “Economia Circular e a Indústria do Futuro”;
  • Pesquisa sobre economia circular no setor industrial brasileiro;
  • Vídeo educativo sobre economia circular.

Entendemos o valor desta agenda para a indústria brasileira e por isso, em 2019, aceitamos o convite da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) para coordenar a Comissão de Estudo Especial sobre Economia Circular (ABNT/CEE-323). O objetivo é conduzir a construção do entendimento do Brasil sobre a elaboração da norma internacional de economia circular, para podermos levar um posicionamento consistente ao debate junto à Organização Internacional de Normalização (ISO).

O início do processo de construção da referida normatização deu-se com a realização, pela ISO, da primeira reunião internacional para dialogar sobre o processo de governança da futura norma (Paris, Maio/2019). Na reunião participaram 61 países e foi possível definir o seguinte escopo de atuação do Comitê Técnico 323 (ISO/TC 323) que será responsável pela elaboração das normas relacionadas a economia circular:

“Standardization in the field of Circular Economy to develop frameworks, guidance, supporting tools and requirements for the implementation of activities of all involved organizations, to maximize the contribution to Sustainable Development.

Excluded: Aspects of Circular Economy already covered by existing committees.

Note: In parallel, the ISO TC 323 works in cooperation with existing committees on subjects that may support Circular Economy.”

Além disso, a coordenação do ISO/TC 323, conduzida pela Associação Francesa de Normalização (AFNOR), organizou os participantes em 4 grupos de trabalho:

  • Grupo 1 - princípios, diretrizes e sistemas de gestão. Após consenso entre a maioria dos países, o acordo firmado é o de definir, primeiramente, os princípios e diretrizes, para somente depois iniciar um diálogo sobre sistema de gestão. A primeira entrega do grupo será uma proposta detalhada de trabalho para elaboração da norma sobre economia circular.
  • Grupo 2 - implementação e aplicação setorial. Segundo decisão do grupo, a norma inglesa (BSI 8001:2017) servirá de base à proposta do texto a ser elaborado. Também será elaborado um documento sobre modelos de negócios e cadeia de valor.
  • Grupo 3 - ferramentas de suporte. Neste grupo, foi identificada a necessidade de se considerar todo o ciclo de vida do produto/processo e optou-se pela criação de um modelo de medição da circularidade.
  • Grupo 4 - assuntos específicos. No grupo foram definidos como objetivos iniciais a criação de relatórios técnicos sobre os temas “abordagem territorial local” e “economia da funcionalidade”.

A primeira reunião presencial de 2020 do grupo ABNT/CEE-323 ocorreu no dia 13 de fevereiro, em São Paulo. Na ocasião, dialogamos sobre as entregas realizadas pelos 4 grupos e definimos o entendimento brasileiro a ser levado para a diálogo internacional na próxima reunião do ISO/TC 323.

O consenso foi em manter os trabalhos dos grupos acontecendo de forma paralela e escalonar a sequência de publicações. Em um primeiro momento, será publicado documento técnico sobre métricas de circularidade (2022), em seguida teremos a norma ISO sobre economia circular (2023) e, após a definição dos princípios, o objetivo é amadurecer a elaboração de uma norma sobre modelos de negócios circulares (2024).

Em síntese, a CNI tem buscado realizar um trabalho de mobilização do setor empresarial para que o resultado desse esforço seja o mais representativo, consistente e coerente possível. Assim, incentivamos todos os interessados no diálogo sobre economia circular que queiram contribuir para este trabalho de construção de um entendimento brasileiro sobre o tema a se inscreverem na Comissão de Estudo Especial sobre Economia Circular (ABNT/CEE-323). Nosso maior objetivo é, cada vez mais, valorizar as boas práticas brasileiras no cenário internacional e contribuir para a competitividade e sustentabilidade do Brasil.

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Inscrições para participar da ABNT/CEE-323 devem ser feitas por e-mail para eduardo.lima@abnt.org.br.